"José Miguel"
Quando o Heitor e eu finalmente viramos as duas últimas páginas daquele diário a noite já está se convertendo em dia. Nós passamos a noite devorando cada página e conversando sobre o péssimo caráter da Cora e a personalidade completamente perturbadora. Confesso que se o Heitor não tivesse se oferecido para ler essas confissões deploráveis comigo, eu teria terminado a noite no bar do hotel, porque enojado era pouco para o que eu senti lendo aquilo.
E por mais que o Matheus já tivesse me preparado para o que eu encontraria ali, por mais que ele tivesse me oferecido um resumo, ler aquelas palavras escritas pela Cora, com detalhes vulgares e uma completa falta de decência me deixaram perplexo. Mas a punhalada final veio nas duas últimas páginas, quando ela detalha aquele dia e o plano que tinha em mente.
***Diário da Cora***
Hoje eu estou de péssimo humor, eu desci até a cozinha no meio da noite para fazer um chá, eu tenho tido dificuldades para dormir desde que essas malditas crianças começaram a esticar a minha barriga. Eu simplesmente os odeio! Mas enquanto estava na cozinha eu decidi levar o chá para tomar no quarto, ao contrário das outras noites, porque minhas pernas estavam doendo e eu queria esticá-las na cama. Mas quando eu cheguei no meu quarto eu encontrei a minha querida mãe lá outra vez, cobiçando o meu marido!
Isso estava passando dos limites, não era a primeira vez e eu já tinha notado que a Carmem estava cada vez se aproximando mais, como se estivesse planejando algo para roubá-lo de mim. Ah, mas isso não ia acontecer, porque assim que essas crianças saíssem da minha barriga eu colocaria a Carmem para fora da minha casa. Eu sabia bem porque ela estava cada vez mais obcecada por ele, mas ele era meu.
Eu coloquei a Carmem para fora do meu quarto e dei um aviso claro para ela, se entrasse ali de novo eu a colocaria na rua no meio da noite e de camisola. Mas, enfim, eu não dormi bem e de manhã o José Miguel me veio com aquela história de festinha de aniversário de coleguinha. Coitado dele!
Estava me custando muito me livrar de todos os amigos dele, eu não dava recados, dizia que ele era um falso e os odiava quando o procuravam, jogava as correspondências fora e enquanto ele dormia eu vasculhava aquele celular dele e respondia mensagens com grosseria. Ele tinha que ficar sozinho, totalmente vulnerável, tinha que pensar que só tinha a mim.
Mas eu ainda estava tendo problemas em me livrar daquela chata da Cândida e do insuportável do Matheus, esses dois parecem o cachorro que não larga o osso. Mas a Cândida, pelo menos, estava com os dias contados, ela não era jovem e aquelas escadas são um perigo. Ela vai tropeçar em breve, de preferência enquanto eu estiver deprimida e debilitada pela perda desses gêmeos ridículos.
A minha decisão já está tomada, eu não vou ter essas crianças! Como eu poderia tê-los? Eu não sei se eles realmente são do meu maridinho ou de um dos meus vários amiguinhos e o grande problema é que se forem do instrutor gostoso da academia, que parece um deus de ébano, eu terei dificuldade em explicar porque as crianças não se parecem em nada com o meu marido.
Pior ainda seria se o José Miguel decidisse fazer um teste de DNA. Coisa que eu tinha feito, mas os resultados ainda não tinham saído e eu estou cansada de esperar, até porque eu tenho quase certeza de que não são do José Miguel, porque não tem gêmeos nem na minha família e nem na dele. O Mauro que engula aqueles resultados, porque eu já tinha tomado a minha decisão e "perderia" os herdeirinhos. Depois eu engravido de novo, mas tomando mais cuidado para não ter nenhuma dúvida de que terei um herdeiro Rossi.
A melhor parte do meu plano é que eu vou jogar a culpa na Carmem, com a ajuda do Mauro, o amiguinho dela que faz tudo o que eu quero, e assim eu a expulso não só da minha casa, mas da minha vida e farei o meu maridinho idiota a odiar.
O Mauro já me passou o remédio que eu devo tomar algumas horas antes de ser empurrada da escada, para garantir que esses bebês não sobrevivam, quando eu for empurrada pela minha própria mãe. Ah, isso vai ser divertido, eu vou esperar o momento certo, vou discutir com ela quando o José Miguel estiver em casa essa noite e vou fazer tudo para que ele pense que ela me empurrou. Eu até ensaiei! Afinal, essa escada será mais útil do que pensei quando eu escolhi essa casa.
Quando eu cair lá embaixo, desmaiada, eu vou ser levada para o hospital onde o Mauro trabalha e ele vai tirar essas coisas da minha barriga, mortas e vai dizer que foi tudo por causa da queda. Eu vou ficar fragilzinha e o meu marido vai fazer tudo o que eu quiser!
O único inconveniente é que a Carmem hoje está estranha, ela ouviu o José Miguel falar do tal aniversário e está me infernizando, dizendo que eu tenho que ir atrás dele e dar um show. Eu duvido muito que ele vá a esse aniversário, mas se ele for, talvez seja melhor eu fazer o que a Carmem disse mesmo, ir atrás dele e dar um escândalo, para ele entender que se eu disser não é não!
E se for preciso eu me jogo na frente de um carro qualquer na rua e aí ele vai se sentir culpado pelo resto da vida pela perda dos adorados gêmeos. Eu já tomei os remédios e preciso de um acidente hoje mesmo para justificar a morte dessas coisas que estão dentro de mim. Eu preferia culpar a Carmem, mas se eu culpar o José Miguel ele vai viver para se redimir comigo, o que também não é ruim. E aí eu posso fazer a Carmem empurrar a Cândida da escada, o que também é um bom plano.
- Ah, isso é uma boa notícia, porque ficar aqui por dois dias sem a minha Evita seria um suplício. - Eu concordei. - Te encontro lá embaixo em trinta minutos.
Ainda era muito cedo, mas eu precisava muito falar com a Eva, porém o celular dela continuava mandando a ligação direto para a caixa postal. Eu enviei cinco mensagens diferentes, em todas dizendo que eu estava morrendo de saudade e que precisava falar com ela para começar o meu dia bem.
Mas enquanto o tempo passava, não chegava nenhuma resposta dela e eu comecei a ficar inquieto e preocupado. E foi por isso, que durante um rápido intervalo na reunião eu liguei para a sala da Eva, mas ninguém atendeu, entao eu liguei para a Sara.
- Lince Mundi, departamento financeiro, bom dia! - A Sara atendeu com aquela voz monótona de quem repetia essa frase mais vezes do que gostaria.
- Sara, é o Rossi, eu não estou conseguindo falar com a Eva, peça a ela para entrar em contato comigo urgente. - Eu pedi e no mesmo momento o Heitor passou por mim, me chamando de volta para a reunião.
- A Eva...
- Tenho que ir, Sara, passe o meu recado o mais rápido possível! - Eu desliguei e voltei para a reunião.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...