"Carmem"
Esta manhã a Melissa tinha me enviado uma mensagem. Ela tinha finalmente conseguido marcar um encontro com aquela mulherzinha, como eu havia pedido. Ela me disse que não podia aparecer por lá, mas depois diria a tal Eva que não conseguiu sair do trabalho para encontrá-la. Agora eu só precisava me livrar da Berta e sair de casa, mas como eu ia fazer isso? Eu passei a metade do dia pensando no que fazer.
Eu tinha deixado o meu vidrinho com a poçãozinha do sono com aquele leso do Leon e o serviçal incompetente do Mauro ainda não tinha me ligado. Eu precisava dar um jeito de colocar a insuportável da Berta para dormir, além do mais, eu já não aguentava mais ficar presa a ela. Talvez aquelas duas idiotas no hospital não tivessem dado o meu recado para o Michel, já tinha dois dias que eu estava esperando. Eu tentei falar com ele de novo, mas a ligação foi direto para a caixa postal.
- Você está inquieta, Urtiguinha. Algum problema? Nem quis ir rezar o terço esses últimos dias. Assim a sua alminha não vai ser salva. - A Berta perguntou e eu perdi a paciência.
- Não te interessa. Anda, vai procurar o que fazer em outro canto, estou cansada e olhar pra você. - Eu precisava me livrar dela, como eu não tinha idéia.
- Assim magoa, Urtiguinha. - Ela reclamou e foi se sentar junto a mesa de jantar, longe das minhas vistas, mas num lugar estratégico, se eu tentasse sair ela me veria.
- Vou ligar para o hospital. - Eu murmurei e peguei o telefone. Assim que atenderam eu disparei. - É a Carmem Carvalho. Quero falar com o Dr. Michel agora e transfira logo ou eu vou ligar para o Mauro e pedir a sua cabeça.
- Desculpa, D. Carmem, mas não é que eu não queira, mas é impossível transferir para o Dr. Michel. Ele se demitiu dois dias atrás. - A voz calma da secretária me enfureceu tanto quanto a notícia.
- Se demitiu? Com o Mauro ausente? Como ele se demitiu? Quem está no lugar dele? - As perguntas saíam da minha boca em cascata.
- D. Carmem, tudo o que eu sei é que o Dr. Michel se desligou do hospital e só será substituído quando o Dr. Mauro voltar. Mas se a senhora quiser, eu posso transferí-la para o departamento de recursos humanos, mas eu duvido muito que eles possam dar maiores informações. - Ela parecia ter uma satisfação pessoal em me responder, como se secretamente risse de mim.
- Quando o Mauro volta? - Eu já estava impaciente.
- Na próxima segunda.
- Ainda?
- A senhora pode tentar o celular... - Eu perdi a paciência e desliguei o telefone antes que ela terminasse.
E agora, o que eu ia fazer? Eu precisava sair, nem que pra isso eu tivesse que jogar um vaso na cabeça da chata da Berta para desmaiá-la. Mas eu também precisava ligar para o Leon e foi o que eu fiz.
- O que você quer agora, Cora? - Ele atendeu com aquela falta de educação que me irritava.
- Fala direito comigo, moleque! - Eu respondi impaciente. - Presta atenção, o encontro com a sua amada está marcado. Hoje às quatro da tarde. No bar do Hotel Savini. Reserve um quarto lá. É para onde você levará aquelazinha para a sua tarde de amor. - Eu ri, o José Miguel ia voltar pra mim rastejando arrependido de ter traído a memória da Cora.
- Aquele hotel custa uma fortuna, Cora! - Ele esbravejou.
- Problema seu! Eu já fiz muito. Você já sabe o que fazer. - Eu encerrei a chamada antes que ele continuasse reclamando. Eu não tinha paciência.
- AH, MEU DEUS! - O grito da Berta ecoou pela casa, desesperado, como se a casa tivesse sido invadida.
- O que foi, inútil? - Eu fui depressa até ela, que estava abaixada no chão amnparando a Cândida, que parecia desfalecida.
- A Candinha, Urtiguinha, ela está passando mal, me ajuda. - Ela pediu aflita.
- Eu não! Você que é a cuidadora aqui, se vira. - Eu cruzei os braços e observei.
- Candinha, Candinha! - A Berta chamava desesperada e a Cândida abriu os olhos languidamente.
- Nossa, quantas qualidades. - Eu falei com desdém.
- Cala a boca. Me ajuda a vigiar. - Ele apontou para a entrada do hotel.
Nós estávamos escondidos num pequeno louge lateral ao loby do hotel, disfarçados entre os pilares grossos da arquitetura do lugar. Observamos por alguns minutos e então a mosquinha morta irrompeu sorridente pela porta, indo direto para o bar que ficava do lado oposto. Tinha chegado a hora.
- Vai! - O Leon falou baixo.
- Calma! Deixa a mosquinha pousar. - Eu sorri. Já tinha um belo discurso formulado para ela. Um arsenal de insultos que a deixaria arrasada. Esse tipinho sonso como ela se calava rápido para evitar escândalo, se consumia na vergonha e não sabia responder quando era pega de surpresa, eu tinha visto da outra vez.
Eu esperei por alguns minutos e então eu fui a passos resolutos em direção ao bar. Ela tinha se sentado numa mesa ao fundo, bem discreta, o que era ótimo para os meus planos. Eu caminhei até lá com um meio sorriso vitorioso.
- Nos encontramos de novo, messalina de Gomorra! - Eu puxei a cadeira em frente a ela e me sentei. O sorriso em seus lábios morreu quando me viu, como se pressentisse que eu ia acabar com ela.
- Ai, cobra de aplique, não estou com a mínima paciência para você hoje. Vai, sai daqui, eu estou esperando uma amiga. - Ela respondeu atrevida.
- Então, até ela chegar, nos duas vamos ter uma conversinha. Me diz, meretriz, quanto você quer para sumir da vida do meu genro e não acabar com o casamento da minha filha?
- Carmem, Carmem, para com isso, já está pegando mal para você! Da primeira vez, você até conseguiu me enganar, mas agora, eu jhá sei que o José Miguel é viúvo.
- Ah, você sabe? Me diz, vadiazinha, como você tem tanta certeza disso? Ah, não, espera, eu já sei, ele te mostrou a certidão de óbito, você viu os cadáveres sendo tirados do túmulo. - Eu dei um sorriso triunfante. - Será, sua piranha ordinária, que era mesmo o cadáver da minha filha? - Eu a encarei serena e tranquila e vi o seu rosto empalidecer. Eu tinha ganhado a batalha de novo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...