"Eva"
Eu pisquei algumas vezes sem conseguir conectar o meu cérebro com a boca. A expressão arrogante da cobra de aplique em minha frente, a calma com que ela despejou aquilo em mim, o sorrisinho cínico, ela sabia que tinha me afetado. Mas como não afetaria? O que ela disse era simplesmente um absurdo, afinal, qual mãe brincaria com a memória da filha assim?
E então a minha cabeça girou, uma mãe não brincaria com o próprio luto. Mas, por tudo o que nós já tínhamos descoberto, a Carmem não ganharia o prêmio de mãe do ano, ela não era exatamente uma mãe preocupada com os melhores interesses da filha. Esse mulher era louca, eu precisava me lembrar que ela era louca, porque tinha que ser muito louca para ficar assombrando o viúvo da filha como ela fazia com o José Miguel.
- Eu estou te avisando, messalina, o José Miguel nunca ficará com você! Ele não pode. Acredite, eu estou te fazendo um bem. Imagina se a minha filha voltar e ele te colocar pra fora da vida dele como um cão sarnento?! Porque ele pode até mentir para você, mas a minha filha é o amor da vida dele. Ou você acha que um homem se manteria fiel a memória da esposa por tanto tempo se não a amasse? - Ele continuou falando e cada palavra dela ecoava na minha cabeça como uma lâmina afiada.
- Sabe o que eu acho, Carmem? Acho que você está muito desesperada. E sabe o que eu sei? Eu sei que o José Miguel nunca vai te ver como você gostaria. Você nunca terá dele o que eu tenho. - Eu fiz um grande esforço para dizer essas palavras com calma, controlada e com um meio sorriso no rosto, tão cínico quanto o dela.
- Ora, sua mulherzinha vulgar! Me respeite! Eu sou uma mulher respeitável. Ao contrário de você que é só uma meretriz para satisfazer as necessidades masculinas dele. Você é um passa tempo, uma distração até ele poder chegar a quem realmente merece.
Ela foi ficando irritada e falando mais alto, eu permaneci sentada, olhando para ela como se olhasse uma tela na parede. Ser chamada de vadia, meretriz e até coisas piores, vindo de gente como a Carmem, não me afetava. Eu não me importava com o escândalo, a namoradinha do Leon já tinha feito tantos que eu tinha ficado imune a esse tipo de situação. E enquanto eu pensava nisso e a Carmem esbravejava insultos, uma figura surgiu ao meu lado na mesa. Seria irritante se eu já não esperasse por ele.
- Algum problema, minha senhora? - O Leon parou ao meu lado, estufou o peito e engrossou a voz para falar com a Carmem. Eu quase ri, que teratro mal feito.
- Não te interesse! - A Carmem cuspiu para ele. - Escuta bem, sua piranha de quinta...
- A senhora modere as suas palavras para se dirigir a Eva! - A voz do Leon se elevou e um garçon se aproximou.
A quem o Leon pensava que enganava? Ele nunca tinha me defendido e a Carla já tinha me chamado de coisa pior que piranha. Geralmente ele ficava de lado, tentando disfarçar um sorrisinho orgulhoso por ter duas mulheres brigando por ele. E lembrar disso me fez perceber o quanto eu fui ridícula e prometer a mim mesma que eu jamais me submeteria a uma situação tão humilhante e degradante nunca mais na minha vida.
- Boa tarde! Posso ajudá-los em algo? - O garçom falou com um sorriso polido e uma atitude educada, mas as suas intenções estavam claras, ele não permitiria que a tensão ali gerasse um escândalo.
- Sim, essa senhora está perturbando a minha amiga. É um problema antigo, ela sempre fazesse tipo de escândalo. - O Leon avisou ao graçom com um sorriso gentil e o garçom olhou para mim.
Aquele garçom tinha me visto chegar, me atendeu e diante da situação, vendo que eu era a única ali que ainda não tinha erguido a voz, ele se virou para a Carmem.
- Senhora, posso ajudá-la a encontrar uma mesa que lhe agrade? Do outro lado do salão tem uma mesa que acredito que irá lhe agradar muito. - O Garçom ofereceu de forma elegante e com aquele sorriso profissional de quem já estava habituado a tentar manter desafetos distantes.
- Não precisa. Eu estou de saída. Esse lugar já foi melhor frequentado. - A Carmem pegou a bolsa e nem olhou para o graçom, mas eu tive que rir da atitude soberba dela. Aquela mulher realmente acreditava que ela era uma diva.
O garçom fez uma mesura, sem a responder e puxou a cadeira para que ela saísse da mesa. A Carmem bateu em retirada, mas antes que o garçom voltasse a se dirigir a mim o Leon se sentou ao meu lado como se fosse a coisa mais natural do mundo e começou a falar.
- Garçom, traz um gin tônica pra mim e um mojito pra ela. - O Leon falou sem nenhuma elegância e eu suspirei.
Que diferença entre um moleque e um homem de verdade. Se fosse o José Miguel ali ele teria sido cortês com o garçom, feito o pedido de forma mais suave e me perguntado o que eu queria. Mas o Leon era o tipo que achava que se as pessoas estavam trabalhando para atender a cortesia era desnecessária, aliás, ele nem conhecia cortesia. E ele tinha o péssimo hábito de achar que tinha direito a fazer o pedido pela mulher que estava com ele, o que nem era o caso ali, mas ainda que eu estivesse com ele, isso era irritante.
- Senhor, por favor, apenas um suco de limão pra mim. - Eu pedi e o garçom, que era mais gentil que o Leon felizmente, fez um aceno para mim.
- Suco de limão, Eva? Desde quando? - O Leon olhou pra mim com ironia.
- Leon, vai procurar sua turma, vai. Eu estou esperando uma amiga. - Eu respondi irritada.
- Quê isso, Eva! A gente se conhece há tanto tempo, será que não podemos sentar e conversar um pouco? - Ele falou em tom de reclamação. Eu já conhecia o discurso que ele usaria, era o mesmo de quando ele voltava querendo me usar quando brigava com a Carla.
- Sai pra lá, Leon! - Eu avisei, ele riu e se afastou, pegou o copo e bebeu metade da bebida dele de uma vez.
Uma coisa era certa, o Leon não tinha a menor elegância e bebia demais. Gente, como eu estive tão cega? Mentalmente eu dava uma sur-ra em mim mesma com uma bolsa por ter sido a ridícula que correu atrás dessa criatura irritante e grosseira por tanto tempo. E enquanto eu o ouvia falar, eu senti algo estranho.
- Qual é, Eva? Vamos colocar as cartas na mesa. Eu já percebi o seu jogo, está dificultando para me fazer dar valor, mas fez questão de me fazer abaixar para ver as suas pernas, que você sabe que eu acho fantásticas. - Ele riu muito perto e a mão dele tocou o o meu joelho sutilmente.
- Desencosta, Leon!
Eu rangi os dentes, mas um calor se espalhou pelo meu corpo e eu me senti meio zonza, quase como se estivesse embriagada. Aquele infeliz tinha me drogado? Não era possível que ele tenha tido a idéia de trocar o remédio que a cobra de aplique deu pra ele.
- Vamos brindar! - Ele ergueu o copo de novo.
E, nesse momento, uma mulher veio em direção a mesa e quando passou esbarrou no meu copo, que tombou sobre a mesa antes que eu pudesse pegá-lo e o líquido escorreu na minha roupa. A mulher se estendeu em desculpas, parecendo muito sem graça e me segurando firme pelo braço se ofereceu para me acompanhar até o banheiro para me ajudar a me secar. Mas eu senti o braço do Leon pesado sobre os meus ombros, me mantendo no lugar.
- Sai fora! - Ele falou de forma ríspida e a mulher olhou entre nós dois.
- Está tudo bem, obrigada! - Eu sorri fracamente e a dispensei. Minha cabeça estava girando.
- Vem, querida, deixa eu te ajudar. - O Leon virou o resto da bebida, jogou as notas sobre a mesa e me ajudou a me equilibrar de pé, ele percebeu que eu estava zonza, que o gole que eu bebi da limonada foi grande o suficiente para que o que ele me deu fizesse algum efeito. - Vamos levar você para se limpar.
No fundo da minha mente eu sabia que era a segunda parte do plano infame deles, mas eu também sabia que logo, logo, ele estaria apagado também e eu tinha certeza que seria tirada dessa situação ilesa. Não seria?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...