"Giovana"
O Felipe continuava encolhido na cadeira de plástico, olhando para nós como um bicho acuado. Eu me mantive um passo atrás do Anderson, cruzando os braços. Eu estava ali como o seu porto seguro, mas quem tinha direito de falar ali era o Anderson. Era o momento de o Anderson assumir as rédeas da situação.
O Felipe limpou o nariz com a manga da camiseta amassada e levantou os olhos, buscando a habitual expressão de proteção no irmão mais velho. Mas ele encontrou a expressão do homem que estava decepcionado e exigiria dele respostas.
- Anderson... cara, me tira daqui. - O Felipe começou, a voz trêmula, carregada de uma falsa ingenuidade. - Aquele policial maluco me interrogou a noite inteira. Ele disse que eu ia ser transferido para o presídio central ainda hoje por associação criminosa. Eu não fiz nada, cara! Eu só estava jogando. Eu não sabia que o lugar era ilegal, eu juro por Deus! Fala com o Flávio, ele é seu amigo, ele te escuta... você não pode deixar me prenderem, eu sou seu irmão.
O Anderson não se moveu. Ele não desfez a postura firme, os ombros alinhados e o maxilar travado. O conselho do Bonfim parecia gravado na mente dele: não amoleça, não afrouxe a corda.
- O Flávio não vai te soltar, Felipe. E eu não vim aqui para te defender. - A voz do Anderson saiu incrivelmente calma, mas com uma rigidez que fez o Felipe se calar. - Você está exatamente onde as suas escolhas te colocaram. Já pensou nisso Felipe?
O Anderson caminhou até o Felipe, perou bem em frente a ele, o olhando do alto. O Felipe desviou o olhar, ficou inquieto, mas não respondeu.
- Você roubou o computador que a nossa mãe comprou com sacrifício, mentiu na cara dela, vendeu o aparelho para voltar direto para a mesa de pôquer.
- O computador era meu, ela me deu. - O Felipe respondeu, ainda sem olhar para o irmão.
- Te deu para você estudar, não para torrar em um vício! - O Anderson falou com uma calma aterrorizante. - Você não é mais criança, Felipe. Chega de bancar a vítima. Já passou da hora de virar homem!
O Felipe piscou, surpreso com a barreira de gelo que encontrou. A tática de apelar para o "irmão protetor" tinha falhado. Ele olhou para o lado, os dentes cerrados, como se procurasse um culpado para o seu fracasso. E os olhos dele pararam em mim. A expressão dele mudou de coitadinho para pura defensiva em um segundo.
- A culpa é sua, não é, Giovana? - O Felipe sibilou, apontando o dedo na minha direção, a voz subindo de tom. - O que ela está fazendo aqui, Anderson? Isso é assunto de família e essa garota não é da nossa família!
O Felipe se levantou e deu um passo em minha direção, mas o Anderson bateu a mão no peito dele, era mais que uma advertência. O Felipe olhou para o irmão com uma mistura de confusão
- Você é amiguinha do delegado. Aposto que você pediu para ele me prender. A culpa de eu estar trancado nessa cela nojenta é sua! - O Felipe olhava para mim, mas eu via nos olhos dele o desespero para encontrar um culpado pela sua falta de sorte. - Foi ela quem começou a se meter onde não devia, se intrometendo na minha vida. Eu sei! A minha mãe me contou. Se você não tivesse metido o bedelho na minha história, Giovana, eu já teria resolvido as minhas dívidas e a minha mãe não estaria chorando! Você estragou tudo! Você acabou com as nossas vidas!
O silêncio que se seguiu foi absoluto. O Felipe parecia ter levado um soco no estômago. Ele deixou o corpo cair sobre a cadeira, estava completamente desnorteado.
- Reabilitação. - O Felipe sibilou, como se testasse a palavra.
- Exatamente! - O Anderson declarou, a voz finalizando qualquer tentativa de discussão. - Pega as suas coisas. Nós vamos para casa. A mãe e o Ary estão nos esperando. E você vai ouvir cada palavra que essa família têm para dizer. E isso inclui a Giovana. Ela está comigo, para a vida toda. E você vai acabar entendendo que ela salvou a sua vida. Pode não ser agora, mas um dia você vai entender e ser grato.
O meu coração estava cheio de sentimentos diferentes, repleto de amor pelo Anderson, triste pelo lugar onde o Felipe estava, com esperança de que as coisas se resolveriam bem, grata pelos amigos que eu tinha e que estavam dispostos a ajudar sempre. Mas sobretudo, eu sentia o que o Felipe estava sentindo, a dor, o medo, a vergonha, todas as dúvidas, porque eu sabia como era estar naquele lugar que ele ocupava agora.
- Felipe, deixa a gente te ajudar. Eu já estive no seu lugar, eu sei como você está se sentindo, sei que ainda vai piorar antes de melhorar, mas eu também sei que quando melhorar, vai ter valido a pena abaixar a guarda. - Eu me aproximei e me abaixei diante dele.
Ele me olhou. Por um momento foi como se eu olhasse o meu eu de cabelos verdes no espelho. Nós éramos muito mais parecidos do que o Felipe podia imaginar.
Ele fez que sim com a cabeça, concordando com as condições e olhou para o Anderson, aquele silêncio dizendo muito mais do que as palavras conseguiriam atingir. Ele estava no próprio limite. Mas tudo o que importava ali era que ele seguisse em frente sem olhar para trás, que ele não se arrependesse de aceitar as novas regras e que ele se curasse daquele vício que destruía pessoas e famílias inteiras todos os dias. Mas eu sabia também que a conversa mais difícil seria a que esperava por ele em casa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque o livro do Anderson e da Giovanna não foi finalizado?...
Pq está travado, não consigo ler os próximos capítulos, depois do 265 Que inclusive é a parte da giovana...
Por que o livro da Giovana e do Anderson está ficando em meio ao livro do Jose Miguel e da Eva. Ficou muito bagunçado isso...
Faltou apenas os três últimos capítulos completos, poderiam liberar ne?...
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...