"José Miguel"
Quando as portas do elevador se abriram no térreo, o silêncio indicava que a recepção estava calma, mas a figura em nossa frente estava fora de lugar. O Julio estava parado com as mãos nos bolsos e a expressão carregada, ele com certeza estava esperando por mim.
- Onde ela está? - Eu perguntei com a voz baixa.
- Eu a deixei esperando na cadeiras mais ao fundo do outro lado, lá é mais discreto. - O Julio olhou para a Eva e tornou a me encarar. - Isso não me parece bom. - Era um aviso claro.
- Não é bom, mas não muda nada. Esteja por perto, o que quer que aconteça, proteja a Eva. - Eu pedi.
- Sempre! - Ele declarou firme, sem precisar pensar. - Rossi, só pra vocês saberem, ela está numa cadeira de rodas e usa uma daquelas máscaras para tratar cicatrizes.
- Obrigado por avisar. - Eu falei no instante em que senti a Eva apertar a mão na minha.
Nós atravessamos o hall e caminhamos até o canto indicado pelo Julio, de costas para nós, estava uma mulher numa cadeira de rodas, os cabelos loiros caindo soltos pelas costas, mais compridos do que a Cora usava. Eu senti a mão da Eva tremer levemente, mas não soltei, a puxei para mais perto de mim.
Nós passamos pela cadeira e paramos em frente a mulher que estava de cabeça baixa. Gradualmente ela ergueu os olhos para mim, como se não tivesse visto a Eva ao meu lado, ou a estivesse ignorando deliberadamente como a Cora certamente faria.
O impacto de ver aquele rosto coberto pela máscara, a possibilidade de estar frente a frente com a Cora cinco anos depois de tê-la enterrado me atingiu como um soco, mas eu não vacilei, engoli o nó que subia pelo meu estômago e o deixava revirado e a enfrentei. A mulher abriu um sorriso que não chegou aos olhos, parecia milimetricamente calculado para ser colocado no rosto naquele momento e eu não pude deixar de me lembrar que era o modo como a Cora sorria, sem expontaneidade, sem realmente sorrir, quase como se fosse obrigatório.
- José Miguel... - Ela girou as rodas da cadeira para se aproximar, a voz carregada de uma falsa emoção, e eu dei um passo atrás puxando a Eva comigo. - Eu imaginei que a recepção seria... diferente.
- Recepção. - Eu a encarei. - Uma mulher aparece do nada no meu local de trabalho, se apresentando com a identidade de uma falecida e ainda espera uma recepção? O que você esperava? Que eu fosse me jogar aos seus pés comovido com a suposta volta de um fantasma do passado? Ah, desculpe te decepcionar. - Eu respondi com o sarcasmo escorrendo na voz.
- José Miguel?! O que é isso? Sou eu, a sua Cora! - Ela esboçou outro sorriso falso. - Olha, vamos para a nossa casa, vamos conversar, só nós dois. Eu vou te explicar tudo, você vai entender o que...
- Eu vou entender? - Eu perguntei com o tom beligerante. - Minha nossa, eu nao sei o que é pior, você ser uma impostora ou ser de fato a Cora. Olha, independente de quem você seja, não existe mais nós, por muitos motivos.
- José Miguel, dispense a sua secretária, vamos conversar, eu tenho como provar que sou eu. - Ela me encarou séria, a voz contida, muito mais baixa do que a Cora costumava falar.
- Cora, vou te chamar assim, já que você vai manter a mentira, ela não é minha secretária e você sabe muito bem, se não porque você é esperta, porque a sua mãe te contou. Esta é a Eva, minha noiva, e qualquer coisa que você tenha a dizer para mim, dirá na presença dela. Agora. - Eu respondi com autoridade e ela riu com desdém.
- Noiva?! Até parece! Acontece que você já é casado e não pode se casar de novo. - Então ela se virou para a Eva, com um ar cínico. - Sinto muito, querida, mas este homem é meu!
- Ah, eu é que sinto muito, querida, mas quem foi à feira perdeu a cadeira. - A Eva respondeu no mesmo tom de cinismo e a força e determinação que surgiram no rosto dela me surpreenderam. - Veja bem, vadia zumbi, você "se morreu" há cinco anos e agora resolve ressurgir das trevas que te carregaram para pesar na vida de quem nem lembrava que você um dia caminhou sobre a terra. Pra quê? Que prazer é esse em destruir a vida das pessoas?
- Destruir a vida das pessoas? - A suposta Cora encarou a Eva, o desprezo evidente nos seus olhos. - Olha, deixa eu te explicar, ele é casado comigo, se tem alguém aqui destruindo alguma coisa ṕe você que não passa de uma amantezinha vulgar.
- Não seja cínica, Cora! Ela não é minha amante! Você sim, é um demônio que deveria ter continuado morto! - Minha voz reverberou pela recepção e alguns olhares curiosos se direcionaram a nós, mas o Julio habilmente desviou toda a atenção em um segundo.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...