"José Miguel"
Enquanto o Matheus caminhava em direção a sala de estar, o silência era interrompido apenas pelas respirações de cada um ali. Ele parou em frente a Carmem, invadindo o espaço pessoal dela e a encarou por um tempo que pareceu muito longo, ela deu um sorriso frio para ele, um sorriso como quem se sentia por cima.
- Você acha que é um golpe de mestre. - O Matheus falou, sem humor, sem sarcasmo, apenas seriedade e raiva. - Não é!
- Você pode achar o que você quiser, cachorro pulguento. Aquela é a minha filha, se vocês quiserem, podemos fazer um exame de DNA agora mesmo. Ela sofreu um horror, ficou deformada, inválida, destruída. Você nunca entenderia o sofrimento dela. Mas o mais importante, ela ainda é a esposa do José Miguel, a única! E vai ser assim até que ele morra! Essa meretriz de Gomorra que ele exibe em todos os cantos não passa de uma amante vulgar! - A Carmem respondeu, insultando a Eva mais uma vez.
- Ah, de amante você entende, não é, cobra de aplique? Afinal, já perdeu as contas de quantos homens casados colocou na sua cama. - A Eva replicou.
- Senhor, tire a sua amante daqui! A Sra. Cora precisa de paz e tranquilidade, não de ser afrontada dentro da própria casa. O senhor já não acha suficiente que ela volte e não encontre nada, nem um alfinete do que foi dela? Quanta crueldade! Tenha pelo menos a dignidade de respeitá-la! - A cuidadora se dirigiu a mim, defendendo a Cora como um cão de guarda, aquilo era incomum.
As palavras da cuidadora chegaram aos meus ouvidos, mas ao invés de me intimidar, de me fazer sentir culpa, me fizeram sentir uma onda de indignação queimando o meu peito. Olhei para aquela mulher, que agia como uma defensora feroz, olhei para a Cora sentada naquela cadeira, fungando e olhando a Eva com ódio, e depois para a Carmem. Elas queriam o palco, queriam o meu remorso, mas, acima de tudo, queriam o lugar da Eva e isso ninguém teria.
- A Eva não vai a lugar nenhum!
A minha voz saiu alta o suficiente para que ninguém duvidasse do que tinha ouvido, com uma firmeza que fez a cuidadora recuar um passo e segurar a mão da Cora, um gesto muito familiar para uma cuidadora. Havia mais entre aquelas duas, havia um vínculo, e eu me perguntei há quanto tempo aquela senhora cuidava dela. Eu senti a mão da Eva apertar e a aparência serema, ela estava no lugar dela, ao meu lado.
- José Miguel, você não pode estar falando sério! - A Carmem protestou, começando a elevar a voz. - Você quer que a sua esposa legítima, nesse estado deplorável, seja obrigada a respirar o mesmo ar que essa mulher? A mulher que está tirando o pouco que ela ainda tem? Isso é tortura! É sadismo!
- O que é sadismo, Carmem, é você entrar na minha casa ofendendo a mulher que eu amo, com quem eu vou me casar. - Eu rebati, encarando-a nos olhos. - A sua filha é que está fora de lugar. Ele foi embora, abandonou esse casamento que ela agora quer reclamar por cinco anos. Ela se passou por morta! Se é que ela é mesmo a Cora. - Eu olhei para a figura na cadeira de rodas, ela parecia estranhamente quieta, deixando a Carmem assumir a sua defesa. - Se a Cora quis voltar, ela que aguente as consequências, porque as coisas agora serão nos meus termos.
O Matheus, que ainda estava muito perto da Carmem, soltou um riso curto e sem alegria.
- Ouviu bem, não é? O "golpe de mestre" não incluiu voltar no tempo e manter o Rossi preso a esse casamento fracassado. Também não incluiu separá-lo da Eva. E tampouco incluiu que vocês vão fazer a festa e encher a cabeça dele de merda! Acho que vocês calcularam mal o tamanho da dignidade do meu amigo. - O Matheus encarava a Carmem sorrindo, mas a frieza do olhar dele congelaria os trópicos.
- Senhor! - A cuidadora chamou outra vez, a voz estridente e irritante. - A Sra. Cora está passando mal! Veja! Ela não consegue nem olhar para essa moça sem lembrar que foi substituída como se fosse um móvel velho!
Eu olhei para Cora. Ela tinha escondido o rosto nas mãos, os soluços agora eram audíveis e angustiantes. Mas eu me mantive firme, me lembrei do que a Eva disse e ela tinha razão, elas queriam a minha compaixão, queriam me controlar pela culpa. Só que desta vez não! Eu respirei fundo e me lembrei da terapia em dia, eu falava com o Nelson toda semana, ele me ajudaria a lidar com tudo e me manter firme.
- Se é demais para a Cora olhar para a Eva, Se ela está passando mal, talvez seja melhor voltar para a clínica. Lá ela terá todo o suporte médico que desejar e não verá nenhum de nós. Você não tem mais nada aqui, Cora, eu fui bem claro com você, é questão de tempo até nos divorciarmos, entãso não deveria estar tão apegada a esta casa, da qual você fugiu por cinco anos, ou ao título de esposa, porque ele não te pertenca mais, você me abandonou, não esqueça! E sendo assim, Cora, se você não pode lidar com a realidade do que você provocou, você pode ir embora quando quiser.
Eu olhei para a Carmem que estava lívida. Aquele sorriso de quando chegamos, de quem estava por cima, se desfez, e a raiva exalou por cada poro dela, os olhos quase saltaram das órbitas e as narinas dilataram. Ela olhou para a Eva com um desprezo que faria qualquer um recuar, mas a Eva a encarou de cabeça erguida.
- Isso não vai ficar assim, José Miguel. - A Carmem sibilou. — Você está escolhendo o pecado em vez do sacramento, José Miguel. E a conta vai chegar.
- Ah, por favor, Carmem, quem é você para falar de pecados? Esqueceu do "exorcismo" que fizemos. - O Matheus sorriu. - Além do mais, o Rossi já está pagando a conta há sete longos anos, Carmem, desde que se casou com a Eva.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...