"Eva"
Nós paramos em frente ao portão, a Gabriele e eu já tínhamos um plano traçado. Nós nem precisamos tocar o interfone, o segurança me reconheceu e abriu sorridente, me dizendo que a Candinha estava na cozinha.
- Ai, Gabi, se aquela piranha ressuscitada reclamar mais uma vez que não tem mais "a poltrona salto alto estilosa" que ela amava, eu juro que vou jogar um feixe de lenha nela e dizer que são os restos mortais daquela cafonice. - Eu falei enquanto caminhávamos em direção à porta.
- Calma, Evita! Nós temos o kit de sobrevivência: flores de plástico, aromatizador de ambiente e naftalina. - A Gabriele ergueu os dois frascos que eu tinha entregue a ela.
Nós entramos na sala, a Cora estava encolhida em um canto, com os olhos baixos, com aquele ar de mártir. A mãe dedicada não estava por perto, apenas a Beta sentada em frente a ela fazendo tricô.
- Que cara de tédio, piranha ressuscitada! Ainda lamentando a morte do seu troninho do mau gosto? - Eu entrei e parei em frente a ela. - Sabe, eu acho que você deveria mudar de estratégia, ficar lamentando que o José Miguel jogou as suas coisas fora já deu o que tinha que dar e ele não se comoveu com isso.
- Você é tão cruel, Eva. Você não entende o que é estar na minha situação, inválida, deformada. Tudo o que você fez desde que eu cheguei foi proferir palavras duras, não se compadeceu da minha condição. - A Cora respondeu e eu comecei a rir.
- Tem até graça, você me dando lição de moral! Não me diga que com o acidente você também perdeu a memória e se esqueceu a pessoa horrível que você era? Manipuladora, mentirosa, que traía o José Miguel com cada homem que cruzava o seu caminho. Esqueceu disso, Cora? - Eu a encarei em desafio, isso ela não podia negar. - Desculpe se o seu rostinho e a sua cadeira não me fazem esquecer a vadia que você é!
- Essas coisas ficaram no passado. Eu mudei, Eva. Mas você é mesquinha! Cruel até. E ainda vem aqui me ofender. O José Miguel nunca permitiria... - Os olhos da Cora brilhavam de raiva em minha direção.
- Poupe o fôlego, Anabelle de rodinhas! O José Miguel está cansado dos seus dramas tanto quanto a Eva. Você deveria ser mais grata, afinal foi o José Miguel que a sua mãe explorou para pagar às escondidas esse seu tratamento de pele que, pelo visto, foi feito por um estagiário de artes plásticas. - A Gabriele interrompeu a Cora.
- Ah, claro, você trouxe uma amiguinha para me infernizar. - A Cora deu um riso seco. - Vocês não têm nada melhor para fazer?
- Melhor? Deixa eu pensar? - Eu coloquei o dedo no queixo como se pensasse em algo. - Até temos muita coisa melhor para fazer, mas precisamos nos livrar de um certo encosto primeiro.
- Anabelle de rodinhas, conta para a gente, você voltou porque o inferno não te deixou entrar ou porque o wi-fi lá de baixo era ruim e você não conseguia atualizar o seu aplicativo de encontros? - A Gabriele se curvou na altura da Cora com um sorriso no rosto.
- Vocês não têm respeito pela dor de uma mulher que está sofrendo... - Ela começou a falar como uma mártir e eu comecei a rir.
- Sofrendo? Piranha ressuscitada, foi você que ressurgiu das trevas para nos perturbar! Você é o capítulo de uma história que nem deveria ter existido. A única coisa que você trouxe de volta foi essa sua personalidade tóxica e desprezível. - Eu respondi impaciente.
- Chega, Eva! Você não sabe de nada! - Ela gritou.
- Sabe o que nós sabemos, Anabelle de rodinhas? Nós sabemos que você esteve sei lá onde por cinco anos! Sabemos que você estava morta, queridinha! Aliás, você nem está viva, é só uma participante adiantada do apocalipse zumbi. - A Gabriele fungou, como se tentasse sentir algum cheiro. - Está sentindo? O cheiro de defunto? Está vindo de você! Ainda bem que eu vim preparada!
Nesse exato momento, a porta principal se abriu. O José Miguel e o Matheus ficaram estáticos, diante da cena: eu segurava uma lata de spray desodorizador de ambiente em frente a Cora, a Gabriele descarregava outra na Carmem que tossia ininterruptamente e a Berta sentada no sofá rindo e jogando naftalinas como se fossem confetes. E eu nem sabia quando e como a Berta pegou as naftalinas com a Gabriele.
- Mas o que... o que está acontecendo aqui? - O José Miguel perguntou meio confuso, meio chocado com a cena.
- Oi, amor! Não sabia que você vinha! Nós estavamos aqui só fazendo uma confraternização com a ex defunta. Ela estava muito deprimida e o cheiro de morta estava contaminando a casa, então nós resolvemos dar um banho de perfume de flores nela... e de realidade também. - Eu contei com um sorriso.
- Pelo visto, o "exorcismo social" hoje incluiu uma tempestade de naftalina. - O Matheus segurou o riso e encarou a Gabriele. - Cortesia do armário de limpeza, Peste?
- Éééé... ah, Carrapato, não enche, você faria pior! - A Gabriele respondeu.
- Em casa eu te mostro o que eu vou fazer com você no armário de limpeza! - O Matheus estreitou os olhos para a Gabriele e aquilo tinha soado como uma promessa e tanto.
- Eva, você não deveria ter vindo! - O José MIguel se aproximou e tampou o nariz. - Minha nossa! Quanto desse negócio vocês jogaram aqui? Está sufocante! Berta, Me ajuda a abrir as janelas.
Enquanto o José Miguel e a Berta abriam as janelas, a Cora e eu nos encarávamos, havia um desprezo mútuo entre nós, eu não a suportava e eu podia ver nos olhos dela que ela me mataria se pudesse. Mas o que eu não entendi era o que o José Miguel e o Matheus estavam fazendo ali.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor irresistível: O segredo do chefe
Porque não liberaram mais capítulos depois do 251?...