Damon
Abri os olhos devagar, permitindo que a luz da manhã invadisse o quarto e me lembrasse do que estava por vir. Meu casamento de conveniência, logo mais, seria um fato consumado. Me dei uns segundos para me acostumar com a ideia antes de empurrar o corpo para fora da cama, os pés firmes contra o chão frio. Comecei a rotina no automático, com passos calculados e movimentos exatos.
Caminhei até o banheiro e liguei a torneira, deixando a água correr até que estivesse fria o suficiente para me despertar. Encarei meu reflexo no espelho. Uma boa noite de sono havia me dado um rosto descansado, e meus olhos fixos nos meus próprios me lembravam de manter a postura que sempre funcionara: confiança e controle.
Lavei o rosto e, depois de secá-lo, caminhei até o armário para pegar minhas roupas de treino. Era uma rotina que nunca falhava. Calcei o tênis e, ao amarrá-lo, senti o costumeiro alívio das manhãs, o peso da rotina que era minha âncora. Correr, deixar o ritmo dos passos e o bater do coração levarem embora o que eu não podia controlar, como as incertezas sobre hoje e o que estava por vir nesse casamento.
Já vestido e com a respiração controlada, saí para o ar frio da manhã, o tipo de brisa que revitalizava. Estava pronto para a corrida. No ritmo certo, aceleraria aos poucos, sentindo cada passo, cada batida no chão como um eco dos meus próprios pensamentos. Hoje seria o começo de algo novo, mas, até lá, tudo continuava sob controle.
Enquanto corria, percebi que o céu estava carregado de nuvens densas, quase como se o tempo soubesse que hoje era um dia marcado. Uma ameaça de chuva pairava no ar, mas isso não parecia deter ninguém. As pessoas ainda circulavam pelas calçadas, algumas correndo, outras caminhando, perdidas em suas próprias rotinas de sábado. Até a trilha, que geralmente ficava quase deserta essa hora, estava movimentada.
Foi então que um casal chamou minha atenção. Caminhavam devagar, a passos sincronizados, as mãos entrelaçadas como se nada mais importasse ao redor. Eles falavam baixo, e, a julgar pelo riso suave da mulher, parecia que compartilhavam algum segredo, algo tão simples e ao mesmo tempo profundamente deles. Senti meu ritmo de corrida quase vacilar enquanto passava por eles. Era curioso como, sem dizer uma palavra, eles pareciam conectados.
E foi ali, observando-os por alguns instantes, que me peguei pensando no que significava realmente ser um casal. Não nas transações ou acordos, nem nos jogos de poder que eu conhecia bem, mas naquela simplicidade: dois indivíduos que escolhem caminhar lado a lado, que dividem momentos e pequenas intimidades. A ideia de compartilhar uma vida parecia, de algum modo, uma vulnerabilidade. Naquela união sem palavras, havia uma entrega que parecia oposta a tudo o que eu havia aprendido até então.
Hoje, eu daria um passo em direção a uma vida compartilhada, mas à minha maneira, claro. Eu conhecia Violet, e sabia que ela não esperava romance. Nosso acordo era prático, e essa conveniência me deixava confortável. E, ainda assim, ver aquele casal me deixou com uma sensação estranha, como se eu estivesse entrando em um jogo do qual ainda não compreendia as regras.
Meus pais nunca foram exemplo de um casal ideal, muito menos de uma vida compartilhada de forma genuína. O que eu via entre eles era mais um acordo de conveniência disfarçado de casamento, algo pragmático e seco. Minha mãe, vinda de uma família com dinheiro, ofereceu o capital para que meu pai erguesse seu império — algo que ele fez com um talento brutal e uma dedicação que sempre admirei. Mas dentro de casa, as coisas eram diferentes.

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