O "Fique à vontade" de Tereza não saía da cabeça dele.
Tão calmo, com tanto descaso.
Era como se... ela não se importasse mesmo com mais nada.
Não dava a mínima para o título de Senhora Ferreira, não se importava se o Grupo Viana iria viver ou morrer e nem aí para... ele.
O celular na mesa vibrou.
Ele virou e foi até lá; era uma mensagem nova de Tereza:
"Amanhã de manhã, às nove, no cartório. Se atrasar, não espero."
Apenas algumas palavras.
Direto, prático, sem um pingo de apego.
Adilson olhou fixo para a frase e de repente deu risada.
A risada saiu espremida da garganta. Foi grave, amarga e com um tom pesado de quem ri de si próprio.
Ele riu, riu, e a risada parou de supetão.
Desligou a tela, jogou o celular na gaveta, ajeitou a gravata do terno, puxou o ar fundo e foi em direção à porta.
O rosto dele já estava com a frieza de sempre, só bem no fundo dos olhos tinha sobrado um rastro de nuvem escura que não dissipou.
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Hospital da cidade, escritório temporário.
A porta abriu e Caio Mendes entrou.
Assim que bateu o olho em Tereza, os passos dele travaram de leve.
A mulher à sua frente usava um suéter de tricô bege simples e uma calça clara. Com os cabelos longos presos de forma solta atrás da cabeça, ela estava em frente à mesa organizando uma pasta. O sol da tarde entrou pela janela e formou uma borda de luz dourada em volta dela.
— Dra. Tereza? — Caio Mendes chamou.
Tereza levantou a cabeça e o viu. A surpresa cruzou seu olhar, mas logo ela voltou ao normal:
— Sr. Mendes?
— Vim agradecer. — Caio Mendes entrou e os olhos dele escanearam a sala simples de forma discreta: uma mesa, uma cadeira e uma prateleira de arquivo. Era tão vazio que nem parecia escritório de médico, e sim uma parada de improviso.
O assistente Hugo atrás dele colocou uma caixa de presente chique na mesa.
— Meu avô saiu da UTI hoje. — Caio Mendes disse, e colocou os olhos no rosto de Tereza. — Os médicos falaram que a recuperação está indo muito bem. Dra. Tereza, obrigado.
Tereza bateu o olho na caixa e balançou a cabeça:
— De nada. Eu sou médica, isso é o que eu tenho que fazer.
— Não é só educação. — Caio Mendes a encarou com seriedade. — Foi você quem salvou a vida do meu avô. A família Mendes registrou essa dívida.
Tereza não respondeu mais nada; só terminou de puxar o zíper da pasta e largou de lado:
— O plano de recuperação pós-cirúrgica do Senhor Osvaldo já está nas mãos do médico responsável. Fazer retorno e tomar o remédio na hora, e não deve ter problemas maiores.
O tom dela era muito monótono, tão normal que parecia que passava adiante uma tarefa qualquer.
Caio Mendes olhou para ela e de repente notou uma revista médica aberta na mesa. A página estava num artigo sobre tratamento chinês depois da ponte de safena. O espaço do autor tinha o nome dela impresso: Tereza Viana.
Ele travou o olhar no nome por dois segundos e depois olhou para Tereza:
— Já li este artigo, muito esclarecedor.
Tereza acompanhou o olhar dele, parou um segundo e deu um sorriso:

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