Hospital da cidade, escritório temporário no sexto andar.
A sala não era grande, com cerca de vinte metros quadrados. Uma mesa, uma cadeira, uma prateleira simples para arquivos. Em cima da mesa, laudos médicos empilhados, um notebook e uma garrafa térmica. A janela dava para o quintal do hospital e as folhas de algumas árvores velhas balançavam levemente no vento de outono.
Era o escritório provisório que o diretor tinha arrumado para Tereza. Simples, limpo, apenas o suficiente para ela checar exames e escrever os prontuários.
Quatro e meia da tarde. O sol batia pela persiana e marcava a mesa de sombras e luzes.
Tereza tinha acabado de revisar o último laudo quando o celular tocou.
Ela olhou a tela: Adilson.
Ela não atendeu de imediato. Guardou o laudo que tinha na mão dentro de uma pasta, fechou o notebook e só depois pegou o celular para apertar o botão de atender.
— Alô. — A voz dela soou sem oscilações.
— Tereza. — A voz de Adilson saiu do telefone, e o fundo estava silencioso. — Vamos conversar.
— Se for para falar sobre o divórcio, sim. — Tereza recostou-se na cadeira e olhou pela janela. — Se não for, não há necessidade.
Houve um silêncio de dois segundos na linha.
— Não é sobre o divórcio. — Adilson disse. — Nós somos casados há três anos, não tem nada que você queira falar?
Tereza girou levemente a caneta na mão e o tom de voz continuou monótono:
— Não.
— Tereza! — A voz de Adilson subiu de repente, mas ele a controlou logo. — Três anos de casados, e você é tão sem coração?
— Adilson — Tereza soltou a caneta, e a voz saiu bem baixa, mas com cada palavra clara. — Desde o dia em que você levou a Berta e a criança para a casa dos Ferreira, não sobrou mais nada para conversar entre nós.
— Foi um acidente! — A voz de Adilson tinha uma irritação reprimida. — Eu posso explicar a história do Erasmo, foi...
— Eu não preciso de explicação. — Tereza o interrompeu. — Não importa mais.
Deu para ouvir ele puxar o ar fundo do outro lado.
Segundos depois, a voz de Adilson esfriou, trazendo uma ameaça explícita:
— Tereza, pense bem. Se você insistir nesse divórcio, eu não vou assinar o empréstimo do Grupo Viana no mês que vem.
A sala estava muito quieta. Tão quieta que dava para escutar as batidas do coração.
Tereza olhou para a árvore lá fora, e uma folha seca e amarela caiu devagarzinho.
Ela lembrou de três anos atrás. O pai ajoelhou na frente dela, implorando para que ela se casasse com Adilson para salvar a Viana da beira da falência. Ela aceitou, mas não pelo pai. Foi porque a avó disse antes de morrer: "Tereza, a família Viana é o trabalho da vida toda do seu avô."
Três anos.
Ela conseguiu segurar a Viana, mas perdeu a si mesma.
— Adilson — Ela abriu a boca e a voz soou serena, como quem relata um fato. — Fique à vontade.
A linha ficou muda na mesma hora.
Depois, a voz de Adilson ficou grave e perigosa:
— O que você disse?
— Eu disse, fique à vontade. — Tereza repetiu, palavra por palavra. — O que você quiser fazer com o Grupo Viana, fique à vontade. Mas do casamento, eu vou me divorciar.

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