Capítulo 30: O Jogo das Aparências
Laura
— Leve seu vestido de volta, meu amigo. — A voz de Rafael ecoou pela sala, carregada de uma autoridade que fez o ar parecer subitamente mais denso, quase difícil de respirar.
Ele parou ao meu lado, a postura rígida e o olhar gélido, marcando território de uma forma silenciosa, mas absoluta. Ele não precisou me tocar; sua presença emanava uma posse que todos no recinto podiam sentir. Rafael encarou Ethan fixamente, os olhos cinzas como lâminas, e concluiu:
— Ela não vai.
O silêncio que se seguiu foi cortante, interrompido apenas pelo som da chuva fraca que começava a bater nas janelas da penthouse. Eu estava sem reação, o coração batendo na base da garganta, sentindo-me como um troféu sendo disputado. Mas Ethan não recuou. Ele deu um sorriso de lado, desafiador, e rebateu no mesmo instante:
— Achei que ela fosse sua funcionária, não sua propriedade, meu amigo.
Notei os punhos de Rafael se fecharem com força ao lado do corpo, os nós dos dedos ficando brancos. A tensão entre os dois era quase palpável, uma faísca invisível prestes a causar um incêndio no meio da sala. Eu precisava intervir antes que a cordialidade de ambos desse lugar a algo muito mais feio.
— Senhor Monteiro... — comecei, tentando projetar uma calma que eu não sentia. Rafael me encarou, e por um segundo vi a tempestade de ciúmes em seus olhos. — Antes do senhor responder por mim, eu mesma já estava prestes a recusar.
Vi a expressão dele suavizar por um breve segundo, um alívio momentâneo que ele tentou disfarçar sob a máscara de CEO. Mas Ethan deu um passo à frente, resmungando meu nome com uma nota de decepção genuína que me fez sentir um aperto de culpa.
— Laura...
— Ethan, eu te agradeço. De verdade — olhei para ele, tentando ser gentil, mas firme. — Mas estou em horário de trabalho. O senhor Monteiro tem razão. Não posso ir.
Um sorriso vitorioso, quase arrogante, surgiu nos lábios de Rafael. Era o sorriso de quem detinha o controle total da situação. Mas Ethan não era do tipo que aceitava uma derrota sem lutar. Ele tinha uma determinação nos olhos que eu conhecia bem era a mesma que o tornava um dos advogados mais temidos da cidade.
— O Enzo já está dormindo e hoje é sexta-feira — Ethan contra-atacou, voltando-se para Rafael com um olhar analítico. — O seu patrão pode muito bem te liberar esta noite, não pode, Rafael? Afinal, quando foi sua última folga, Laura?
Pisquei, pega de surpresa pela pergunta direta. Comecei a gaguejar, buscando na memória uma data que parecia ter sumido sob o peso do olhar de Rafael.
— Bem... foi... eu... — A verdade é que, desde que nos envolvemos, as linhas entre trabalho e vida pessoal tinham se tornado tão tênues que eu já não sabia mais o que era folga.
— Foi o que pensei — Ethan disse, o tom de triunfo agora pertencendo inteiramente a ele.
Antes que Rafael pudesse protestar ou inventar uma nova regra contratual, o celular dele vibrou no bolso do smoking. Ele atendeu rapidamente, o rosto voltando instantaneamente para a máscara de homem de negócios.
— Sim... estou saindo agora. Chego em dez minutos. — Ele desligou e me olhou. Eu estava perdida, sem saber como agir. Ethan foi rápido, fechando todas as minhas rotas de fuga com uma lógica que, para quem olhasse de fora, fazia todo o sentido. Rafael tentou argumentar, mas eu via em seus olhos o conflito: ele estava atrasado. O contrato europeu, o sucesso do negócio pelo qual ele trabalhou meses, tudo dependia de sua pontualidade naquela noite.
— Vá, Ra… — cortei a palavra ao meio, antes de corrigir. — Senhor Monteiro — murmurei.
Ele saiu contrariado, lançando um último olhar de aviso para Ethan que poderia ter reduzido o amigo a cinzas. Quando a porta se fechou, o silêncio que ficou na sala era carregado de uma nova expectativa.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Babá do Herdeiro: Paixão com o Bilionário
não cosegui ler...