— Mas que merda é essa? — Saulo começou a falar irritado.
— Do que você está falando? — Não entendia o que ele falava.
— Por que a Aurora está vestida daquele jeito?
— Ah, disso que você está falando? — Saulo me olhava desacreditado, como se fosse a última coisa da vida, a Aurora estar vestida num uniforme. — Ela está vestida a caráter, ué, ela não veio passear, veio trabalhar.
— Pelo amor de Deus, Oliver, você nunca exigiu que ela vestisse uniforme em casa, agora numa festa dessas com todo mundo arrumado, você a faz passar por isso. Que constrangedor!
— Desde quando é constrangedor trabalhar?
— Eu não estou questionando o trabalho, nem o uso do uniforme, mas, para alguém que nunca exigiu, fazê-la usar numa ocasião dessas. Olha ao nosso redor, veja como todos estão vestidos, como você acha que ela está se sentindo?
— Não a vi, em momento algum, questionar ou fazer cara feia.
— O que está acontecendo, cara? Tem alguma coisa que eu não estou sabendo?
— Não tem nada acontecendo, está tudo nos conformes, Aurora é minha funcionária e está fazendo apenas seu trabalho, queria que eu fizesse o quê? Que ela viesse vestida de um modo que as pessoas pensassem que somos uma família? Que alguém visse e falasse que somos um casal? Aurora veio a trabalho e será assim durante toda a semana. Darei um dia de folga para ela, assim ela se veste como quiser, mas bem longe de mim.
— Ah, cara, para com isso, desde quando você se importa com o que as pessoas falam?
— Só estou fazendo o correto.
— Oliver, você está bem?
— Claro que estou, por que a pergunta?
— Cara, parecia estar rolando alguma coisa entre vocês, você estava louco por ela, moveu céu e terra para protegê-la e agora está tratando-a com indiferença.
— Saulo, você é meu melhor amigo e me conhece mais do que qualquer outra pessoa, eu só estou tentando não repetir o mesmo que fiz no passado.
— Como repetir, Oliver? Foi você mesmo que disse que a Aurora era diferente.
— E eu acho que seja! — Me encostei na parede do corredor. Não havia pessoas ali e estava escuro o suficiente para que quem passasse não visse minha cara de frustrado. — Mas mesmo ela diferindo, não muda que o que possa sentir por mim seja apenas gratidão, você não entende? Eu lhe dei abrigo, um emprego, ela é bem cuidada e conseguiu se livrar do padrasto que a perseguia. Quem garante que, se eu tentasse algo a mais, ela só aceitaria apenas por gratidão e medo de perder tudo?
— Nossa, eu te entendo, mas você não pode deixar essas paranoias dominarem você.
— Não é paranoia. — Parei um pouco antes de continuar — Ela disse que seria ingratidão se rejeitasse algum pedido meu.
— Quando ela disse isso?
— Antes de irmos para o fórum, eu a havia chamado para ir jantar depois do julgamento.
— Talvez ela disse isso em relação àquele momento, que seria ingratidão pelo que você estava fazendo para ajudá-la, não sobre o todo em geral.
— Eu sei, mas… E se, quando a beijo, ela não me rejeita por medo da minha postura, caso diga não? Ela pode ter medo de perder o emprego ou medo de, como disse, ser ingrata?
— Estou te entendendo agora, mas isso não muda que você precise colocá-la tão exposta assim, ninguém sabe o que passa na cabeça dela, mas tenho certeza de que não seja só gratidão que ela sinta por você. Percebemos que ela é uma pessoa boa, tanto que te ajudou quando nem te conhecia, ela poderia ter colocado a vida dela em risco naquela noite na ponte, mas preferiu interferir.
— Eu só estou tentando não misturar as coisas de novo, ela cuida muito bem do Noah, não quero que vá embora, também não quero que fique sendo importunada, tendo medo de falar não, para mim.
— Pelo que percebo, ela não teria medo de falar não, hein! Olha o que ela fez com o padrasto, que tentou tocar nela sem consentimento. Deixou tudo para trás, a mãe, a irmã, a casa. Acha mesmo que, se ela não quisesse nada com você, teria medo de dizer não? Ela simplesmente te daria um chute no saco e iria embora.
Saulo tinha um jeito humorado de me fazer entender as coisas. Naquele momento, eu concordava com ele, mas quando estava sozinho, algo me dizia para ir com calma. Liana me deixou louco, não deixarei outra pessoa fazer o mesmo novamente.
— E que história é essa de você estar descontando o salário dela?
— Estou vendo que vocês andaram conversando muito. — Ironizei. — Eu a levei para jantar depois do julgamento, já que você não cumpriu sua promessa.
— Eu só estou brincando com ela, o seu jeito inocente de acreditar nas coisas me faz continuar com isso e ela nem está precisando de dinheiro.
— E como você sabe disso? Por acaso, agora você lê mentes?


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