O carro avançava pela avenida iluminada, mas o silêncio dentro dele parecia ainda mais pesado do que a noite ao redor.
Lívia mantinha as mãos apertadas sobre o colo, tentando controlar a respiração.
— Adrian… quem era aquele homem?
Ele continuou olhando para frente por alguns segundos antes de responder.
— Alguém do meu passado.
— Isso eu já percebi.
— E alguém que eu esperava nunca mais encontrar.
O tom dele era diferente.
Mais tenso.
Mais sério.
— Ele tem ligação com as ameaças?
Adrian assentiu.
— Provavelmente.
O coração dela disparou.
— Então você sabia que isso podia acontecer.
— Eu sabia que existia essa possibilidade.
— E mesmo assim me levou até lá?
Ele virou o rosto rapidamente para encará-la.
— Eu não sabia que ele estaria presente.
O silêncio voltou.
Lívia sentia que cada nova resposta trazia mais perguntas.
— Qual é o nome dele?
Adrian hesitou.
— Victor Salazar.
O nome não significava nada para ela.
— O que ele fez?
— Ele perdeu tudo por minha causa.
Um arrepio percorreu sua espinha.
— Você destruiu a empresa dele também?
— Não foi tão simples.
Ela soltou uma pequena risada nervosa.
— Nada nunca é simples quando se trata de você.
O carro parou no portão da mansão.
Assim que entraram, Adrian saiu rapidamente e falou algo com os seguranças.
Lívia o observou de longe.
Era estranho ver como ele mudava quando estava em modo de “controle”.
Frio.
Calculista.
Quase impenetrável.
Alguns minutos depois, ele voltou até ela.
— A segurança foi reforçada.
— Isso está ficando assustador.
— Eu sei.
— Você não parece assustado.
— Porque já vivi isso antes.
Ela o encarou.
— Quantas pessoas você deixou pelo caminho, Adrian?
A pergunta saiu mais dura do que ela pretendia.
Ele não respondeu imediatamente.
— Mais do que gostaria de admitir.
As palavras ficaram no ar.
Dolorosas.
Sinceras.
— Então por que eu deveria acreditar que você vai me proteger?
Nem mesmo ele parecia totalmente convencido das próprias palavras.
Lívia sentou-se lentamente no sofá, sentindo o corpo ainda tenso.
O som da porta sendo trancada, das vozes baixas dos seguranças no corredor e do vento batendo nas janelas criava uma atmosfera quase sufocante.
— Eu não estou acostumada com isso — disse ela, olhando para as próprias mãos.
Adrian permaneceu de pé por alguns segundos antes de se aproximar.
— Eu sei.
— Não… você não sabe.
Ela levantou o olhar.
— Você cresceu nesse mundo. Eu não.
Ele pareceu refletir sobre aquelas palavras.
— Talvez eu tenha esquecido como isso pode ser assustador para alguém de fora.
— Assustador é pouco.
O silêncio voltou por um instante.
— Quando me casei com você — continuou Lívia — achei que o maior problema seria lidar com mentiras e segredos.
Ela respirou fundo.
— Nunca imaginei que teria medo pela minha própria vida.
Adrian sentou-se ao lado dela.
A proximidade dele era ao mesmo tempo reconfortante e inquietante.
— Você não está sozinha nisso.
Ela o encarou.
— É exatamente isso que me assusta.
— O quê?
— Estar tão perto de alguém que parece atrair perigo.
As palavras ficaram suspensas entre eles.
Mas, pela primeira vez, Adrian não tentou negar.
E aquele silêncio dizia mais do que qualquer explicação.

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