Após deixar ferver em fogo alto, Helena baixou o fogo para o mínimo e colocou a tampa pesada na panela de barro.
Esse prato não precisava de sal. O sabor salgado do próprio presunto seria liberado aos poucos durante o longo tempo de cozimento, misturando-se ao caldo e à carne de porco, e esse seria o tempero mais natural possível.
O tempo restante dependia do fogo e de paciência.
O vento frio do início da primavera uivava lá fora, mas a cozinha aos poucos se encheu de um aroma tão forte que não se dissipava.
Era o aroma da gordura suculenta do pernil misturado ao sabor salgado do presunto curado saía pelo vapor que escapava da tampa da panela de barro, enchendo toda a casa pouco a pouco.
Helena limpou a bancada da cozinha, lavou alguns morangos e sentou-se no sofá da sala com uma tigela pequena, comendo os morangos enquanto provava o doce de amendoim que Isadora tinha levado para ela.
A panela de barro borbulhava no fogão há quase duas horas.
Conforme o tempo passava, o colágeno do joelho de porco era totalmente extraído pelo cozimento, e o caldo que antes era claro foi se tornando cada vez mais branco e espesso.
O sabor salgado do Presunto Maturado envelhecido se juntou à doçura dos brotos de bambu de inverno e à gordura macia da carne de porco, criando uma reação incrível dentro do ambiente fechado da panela de barro.
O cheiro era avassalador.
Ele saiu pelo exaustor da cozinha e escapou pelas frestas da janela entreaberta até o quintal e, por fim, soprado pelo vento frio do início da primavera, espalhou-se de forma suave pelo ar do Residencial Magnólias.
Às cinco e meia da tarde, era justamente a hora em que todas as casas se preparavam para fazer o jantar, ou quando as pessoas tinham acabado de voltar do trabalho para o condomínio.
O vento frio soprava forte, e as pessoas que andavam na rua já ficavam com fome facilmente. Quando esse aroma encorpado, intenso e carregado do cheiro da carne e do frescor do presunto passou flutuando, foi como se tivesse ganchos que entravam direto no nariz de quem sentisse.
Naquele momento, Dona Dalva passeava lá embaixo segurando na coleira o seu poodle com suéterzinho.
O poodle já amava comer de natural, mas ao sentir o cheiro da carne no ar, nem parou para fazer xixi: esfregou o focinho no chão farejando desesperado e puxou a coleira correndo em direção ao Bloco 1.
— Ei! Vai devagar! — Dona Dalva tropeçou ao ser puxada pelo cachorro e não teve escolha a não ser continuar andando atrás dele.
O poodle deu um trotezinho e parou bem atrás do primeiro andar do prédio 1, latiu duas vezes na direção da casa, balançando o rabo igual a um helicóptero.
Dona Dalva parou ao acompanhá-lo e, quando levantou os olhos, ficou completamente travada no mesmo instante.
O exaustor girava com força, e o cheiro do joelho de porco com presunto que deixou metade do condomínio com água na boca vinha direto da cozinha daquela família.

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