As manhãs na casa Yamamoto eram simplesmente silenciosas e Valentina percebeu isso ainda deitada, antes mesmo de abrir os olhos. Não havia passos apressados no corredor, nem portas sendo fechadas com pressa, nem vozes se cruzando ao longe. O silêncio não era ausência de vida — era controle absoluto dela.
Levantou-se devagar.
O quarto ainda carregava a luz suave filtrada pelos painéis japoneses. Tudo parecia exatamente no lugar onde deveria estar. Rafael ainda dormia, de costas para ela, semblante calmo, respiração lenta. Ela tomou um banho rápido, mais frio do que gostaria, como se o próprio ambiente exigisse lucidez.
Vestiu-se com cuidado. Um vestido discreto, elegante, adequado para o clima e para o olhar de quem observa tudo. Nada chamativo. Nada defensivo. Apenas correto.
Quando saiu do quarto, encontrou Rafael no corredor.
Ele já estava pronto.
Camisa clara, mangas ajustadas, postura firme. O relógio no pulso denunciava que ele acordara antes dela. Os dois trocaram um olhar breve — daqueles que não pedem explicação nem resposta.
— Bom dia. — ele disse, baixo.
— Bom dia. — ela respondeu.
Caminharam lado a lado até a área do café da manhã.
A mesa estava posta com a mesma precisão dos dias anteriores. Arroz quente, peixe grelhado, frutas cortadas com cuidado quase artístico, chá servido na temperatura exata. Nada excessivo. Nada improvisado.
Yamamoto chegou poucos segundos depois.
Akemi sentou-se à direita dele. Hana à esquerda.
A ordem nunca mudava.
Valentina notou. De novo.
— Bom dia. — Yamamoto disse, com a voz firme e sem pressa.
— Bom dia. — Rafael respondeu.
— Bom dia. — Valentina acompanhou, com um leve inclinar de cabeça.
O café começou em silêncio.
Não era constrangimento. Era costume.
Valentina observava mais do que falava. A forma como Yamamoto segurava os hashis, o modo como Akemi servia o chá antes de beber, Hana comentando algo breve sobre o clima, com um sorriso fácil que quebrava a rigidez do ambiente sem ultrapassar limites.
Foi Yamamoto quem rompeu o ritmo.
Pousou os hashis com calma.
— Hoje iremos ao centro de golfe. — disse, como se estivesse anunciando algo trivial. — Não é justo que venham ao Japão e não conheçam o campo da família.
Não houve pergunta.
Akemi assentiu imediatamente.
Hana pareceu satisfeita, como quem já esperava aquilo.
Rafael não demonstrou surpresa.
— Será um prazer. — respondeu, no tom exato.
Valentina sorriu.
Por fora.
Por dentro, o estômago apertou.
Golfe.
Ela manteve a postura. Não reagiu. Não fez perguntas. Aprendera cedo que, em certos ambientes, demonstrar desconforto era entregar munição.
O café terminou pouco depois, com comentários leves e nada que pudesse ser chamado de conversa profunda.
Quando se levantaram, Yamamoto foi direto.
— Saímos em quinze minutos.
E saiu da sala.
Sem pressa.
Sem olhar para trás.
No corredor, Valentina caminhava ao lado de Rafael. O som dos passos ecoava baixo no piso de madeira. Só quando se aproximaram da ala reservada é que ela respirou fundo.
— Rafael… — chamou, baixa.
— Sim.
Ela hesitou por meio segundo.
— Eu não sei jogar golfe.
A frase saiu simples. Sem desculpa. Sem drama.
Rafael parou de andar.
Virou o rosto para ela com calma.
Piscou uma vez.
Na mente dele, Valentina era capaz de qualquer coisa. Aquela informação exigiu ajuste.
— Não sabe? — perguntou, mais confirmando do que questionando.
— Nunca joguei. — respondeu. — Não é algo que fez parte da minha vida.
O silêncio durou dois segundos.
Depois ele assentiu.
— Tudo bem. — disse. — Eu te ajudo.
Ela soltou o ar devagar, como se tivesse estado prendendo a respiração sem perceber.
— Obrigada. — respondeu. — Eu só… não queria parecer despreparada.
Rafael a olhou de lado, sério.
— Aqui, fingir saber seria pior. — disse. — Honestidade conta mais do que habilidade.
Valentina sorriu, pequena.
— Então estou no lugar certo.
Ele quase sorriu também.
Quase.
Pouco depois, os carros estavam posicionados.
Funcionários aguardavam em silêncio absoluto.
Akemi e Hana já estavam prontas.



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