O campo seguia em seu ritmo próprio. Tacadas espaçadas. Passos contidos sobre a grama impecável. O som seco do taco encontrando a bola e, logo depois, o silêncio voltando a ocupar tudo. O sol da manhã já estava mais alto, refletindo nos lagos artificiais e recortando sombras longas sobre o verde.
Valentina caminhava com atenção redobrada.
Não pelo jogo — ainda estava longe de entender a lógica completa do golfe —, mas pelo terreno. O campo era lindo, sim, mas traiçoeiro em alguns pontos. Declives suaves demais para serem notados de imediato, grama aparada com perfeição suficiente para enganar qualquer passo distraído.
Ela se afastou alguns metros para observar a próxima jogada.
Foi rápido.
O pé escorregou no ponto exato onde o gramado encontrava uma leve inclinação. O corpo perdeu o eixo por um segundo — curto demais para gritar, longo o suficiente para o susto atravessar o peito.
Valentina sentiu o chão fugir.
E então… não caiu.
Um braço firme envolveu sua cintura. Outro segurou seu antebraço com precisão absoluta. O movimento foi rápido, instintivo, forte o suficiente para trazê-la de volta ao equilíbrio sem machucar, sem puxar demais, sem hesitar.
Rafael.
Ela foi parar contra ele.
Muito perto.
O impacto foi suave, mas o efeito não.
O tempo desacelerou de um jeito estranho, quase indecente.
O corpo dela ainda apoiado nos braços dele. A mão dele firme na cintura, quente, segura. O perfume dele misturado ao ar fresco do campo. O coração dela batendo rápido demais para ser discreto.
Valentina ergueu o rosto.
Rafael já a olhava.
O sol bateu de lado, refletindo nos cabelos dele, iluminando o contorno do rosto com uma luz dourada inesperada. A claridade fez com que os olhos dele parecessem ainda mais claros, ainda mais atentos.
Ela piscou.
Não para fugir do olhar — mas porque aquilo parecia irreal demais para ser ignorado.
A luz também tocava o rosto dela. Rafael percebeu. O brilho suave sobre a pele, o contraste dos olhos com a expressão levemente surpresa, a respiração ainda descompassada.
Por cinco segundos…
O mundo parou.
Não houve pensamento lógico. Não houve cálculo. Não houve estratégia.
Só o silêncio.
O tipo de silêncio que não constrange — revela.
O campo, o jogo, Yamamoto, o contrato, tudo desapareceu.
Cinco segundos que, para Rafael, duraram horas.
Ele não sabia explicar o que sentia. Só sabia que não queria soltar.
Mas soltou.
Porque era Rafael Montenegro.
— Você está bem? — perguntou, por fim, a voz mais baixa do que o normal.
Valentina engoliu em seco.
— Estou. — respondeu. — Obrigada.
Foi quando a voz de Hana quebrou o momento, leve e espontânea:
— Ai… que lindo.
O mundo voltou.
Valentina deu um pequeno passo para trás, saindo dos braços de Rafael como se só então percebesse onde estava. Ajustou a roupa com um gesto rápido, quase automático, tentando recuperar o controle que o corpo ainda não tinha.
O coração batia forte demais.
Sem pensar muito — talvez justamente para não pensar —, ela se aproximou novamente.
Dessa vez, por escolha.
Valentina se inclinou e depositou um beijo leve no rosto de Rafael.
Rápido. Simples. Íntimo demais para ser apenas formal.
— Obrigada, querido. — disse, com um sorriso contido.
E se afastou.


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