Valentina acordou antes do horário habitual. Ela se levantou com cuidado para não acordar Rafael. Vestiu um casaco leve e saiu do quarto sem fazer ruído. Caminhou pelos corredores largos da ala reservada até uma porta lateral que ainda não tinha explorado.
Ao deslizar o painel, o jardim se revelou.
Era… lindo.
Um jardim oriental perfeitamente equilibrado: pedras claras formando caminhos irregulares, lanternas baixas ainda acesas, um pequeno lago central onde carpas coloridas se moviam com uma lentidão quase hipnótica. O reflexo da água captava o céu da manhã, ainda pálido, como se o dia estivesse sendo desenhado aos poucos.
Valentina se aproximou do lago e sentou-se em um banco de madeira escura.
Ficou ali, observando.
O movimento constante das carpas, sempre em fluxo, nunca colidindo, nunca apressadas. Aquilo a acalmou de um jeito estranho. Como se o mundo pudesse existir sem urgência — e ela tivesse esquecido disso.
Foi então que ouviu a voz.
— Não, Kenji.
Valentina congelou por um segundo.
A voz vinha do outro lado do jardim, parcialmente encoberta por um bambuzal. Não era alta. Não era ríspida. Mas carregava autoridade suficiente para não admitir distrações.
— Eu entendo o que você quer — continuou a voz feminina, firme —, mas isso não muda o que você é.
Valentina reconheceu imediatamente.
Akemi Yamamoto.
Ela não se virou. Não por curiosidade, mas porque já estava ali sentada, exposta demais para desaparecer sem chamar atenção.
A conversa continuou.
— Mãe… — a voz masculina soou cansada, jovem, tensa — eu não quero voltar para o Japão e ficar trancado em um escritório pelo resto da vida.
Houve uma pausa curta.
— Você e seu irmão nasceram para isso. — Akemi respondeu, sem dureza, mas sem concessão. — E você sempre soube.
— Isso não é viver. — o filho retrucou. — É obedecer.
Akemi respirou fundo. Valentina percebeu pelo tom — não pelo som — que aquela não era a primeira vez que tinham essa conversa.
— Kenji, ir contra as decisões do seu pai não é apenas desobedecer. — disse ela. — É desafiar uma estrutura inteira. E você sabe o preço disso.
— Eu servi o país. — a voz dele subiu um pouco. — Passei anos no exército. Eu pensei que isso me daria o direito de escolher.
— Dever cumprido não apaga destino. — Akemi respondeu, com uma calma que doía. — Seu pai não vê isso como punição. Vê como responsabilidade.
— E você? — ele perguntou. — Você nunca quis outra coisa?
O silêncio caiu pesado.
Valentina sentiu o impacto antes mesmo da resposta.
— Eu aprendi cedo — Akemi disse, por fim — que querer não muda o que precisa ser feito.
A frase não foi dita com amargura.
Foi dita com aceitação.
— Vou pensar. — Kenji respondeu, mais baixo. — Mas não prometo nada.
— Eu não espero promessas. — Akemi disse. — Espero maturidade.
A ligação terminou.
O jardim voltou ao silêncio.
Valentina permaneceu imóvel, o olhar fixo na água, o coração apertado por ter ouvido mais do que deveria. Ela não queria estar ali naquele momento — mas também não havia como desaparecer.
Akemi surgiu entre as árvores poucos segundos depois.
O celular ainda na mão.
O olhar atento.
Ela viu Valentina imediatamente.
Parou.
Por um instante, nenhuma das duas falou.
— A senhora… ouviu. — Akemi disse, não como pergunta, mas como constatação.
Valentina se levantou rápido, visivelmente constrangida.
— Senhora Yamamoto, me desculpe. — disse, sincera. — Eu não queria ouvir. Eu juro. Só… não tinha como sair sem interromper.
Akemi a observou por alguns segundos longos.
Depois, com um gesto discreto, indicou o banco ao lado.
— Sente-se. — disse.

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