Valentina acordou com a estranha sensação de silêncio demais.
Não era o silêncio confortável da madrugada. Era outro. Um vazio específico demais para ser ignorado.
Virou o rosto devagar, ainda envolta pelos lençóis macios, esperando encontrar o corpo ao lado. O calor. O peso familiar da presença que, na noite anterior, tinha sido abrigo e risco ao mesmo tempo.
Nada.
O lado da cama estava intacto.
Ela franziu levemente a testa, sentando-se com calma, sem pressa para reagir. O quarto ainda estava em meia-luz, as cortinas parcialmente abertas deixando entrar o cinza suave da manhã paulistana. O cheiro dele ainda estava ali — sabonete, algo amadeirado, conforto perigoso.
Então ouviu.
A voz baixa.
Vinha da sacada.
Valentina levantou-se sem fazer barulho, caminhando até perto da porta de vidro, sem se expor totalmente. Rafael estava de costas, o celular encostado ao ouvido, o corpo relaxado demais para alguém que estivesse tendo uma conversa simples.
— Espere um mês. — ele disse, firme, sem rodeios. — Coloque as ações da Fênix para abrir capital.
Valentina congelou.
Do outro lado da linha, a resposta veio abafada, mas o tom era claro o suficiente para atravessar o vidro.
— Um mês é pouco tempo, senhor.
Rafael apoiou a mão no parapeito da sacada, o olhar perdido na cidade que despertava abaixo.
Houve uma breve pausa.
— Faça exatamente como eu disse. — eu tenho um mês para virar esse jogo. completou. — Sem antecipar movimentos.
Ele encerrou a ligação.
No mesmo instante, Valentina deu um passo para trás.
Tarde demais.
Rafael virou o rosto.
Os olhares se encontraram através do vidro.
Por um segundo, nenhum dos dois disse nada.
Ele entrou no quarto com a naturalidade de quem já sabia que tinha sido ouvido.
— Bom dia. — disse, um meio sorriso surgindo no canto da boca.
Valentina cruzou os braços, ainda envolta pelo lençol.
— Bom dia. Desculpa não queria ter ouvido, mas acordei e ouvi sua voz.
Rafael aproximou-se sem pressa, como se aquele espaço ainda fosse exclusivamente deles. Parou à frente dela e a beijou — simples, quente, íntimo. Um beijo de quem não estava pedindo nada. Apenas confirmando.
— Tudo bem, não era nada demais. Dormiu bem? — perguntou.
— Dormi. — ela respondeu, sincera. — Mas acordei sozinha.
— Eu precisava resolver uma coisa. — disse ele, sem se justificar demais.
Valentina sorriu de canto.
— Eu preciso ir ao banheiro.
— Tudo bem. — Rafael respondeu, observando-a com atenção. — Vou pedir para trazerem o café da manhã aqui no quarto.
Ela assentiu e seguiu para o banheiro.
O vapor ainda pairava no ar. A toalha usada pendia no gancho. O espelho denunciava que ele já tinha tomado banho. Valentina ligou o chuveiro e deixou a água quente cair sobre os ombros, tentando organizar os pensamentos — tarefa inútil.
Quando saiu, envolveu-se no primeiro tecido que encontrou.
Um roupão.
Dele.
Grande demais. Pesado. Cheirando exatamente como ele.
Ao voltar para o quarto, encontrou Rafael sentado na beirada da cama, já vestido com uma camisa clara e calça social. O olhar dele percorreu o corpo dela sem disfarce algum.
— Isso fica perigosamente bom em você. — comentou.
Valentina sorriu e caminhou até ele.
— Quer que eu peça para trazerem algumas roupas suas? — ele perguntou. — Deixar aqui.
Ela parou bem à frente dele.
— Não.
Antes que ele entendesse o motivo, Valentina sentou-se no colo dele, as pernas encaixando naturalmente, os braços repousando nos ombros largos.
Rafael levou meio segundo para reagir. Depois, as mãos foram para a cintura dela, firmes, presentes.
— Vamos fazer assim. — ela disse, olhando diretamente nos olhos dele. — Eu não quero sua mãe atormentando minha vida. Não quero guerra aberta. Não quero espetáculo.
Ele franziu o cenho, atento.
— Então…
— Vamos deixar cada um no seu lugar. — continuou. — Publicamente. Oficialmente. Como sempre foi.
Rafael ficou imóvel.
— E entre nós?
Ela inclinou levemente o rosto, um sorriso lento, consciente.
— Entre nós… — disse — a gente fica assim.
Ele respirou fundo.
— Você está me pedindo para quê, exatamente? — perguntou, a voz baixa, controlada demais.
— Que não misture as coisas. — respondeu. — Que não prometa o que não pode cumprir. Que não me exponha.
Rafael a observou por alguns segundos longos.
— Você quer que eu seja seu amante escondido? — perguntou, direto.
Valentina sorriu abertamente agora. Sem ironia. Sem medo.
— Sim.
A palavra ficou no ar.
Rafael soltou um riso baixo, incrédulo.
Ele riu de novo, dessa vez com gosto.
— Claro que quer.
Antes que ela dissesse qualquer outra coisa, Rafael a ergueu no colo com facilidade, girando uma vez no quarto.
— Você está me chantageando com inteligência. — disse, divertido.
— Não. — Valentina respondeu, rindo. — Estou negociando.
Ele a colocou de volta na cama.
O resto não precisou de palavras.
Houve mãos, calor, respirações próximas demais para serem ignoradas. Não foi pressa. Foi escolha. Repetida. Consciente. Como se ambos soubessem que aquele era o único espaço onde podiam baixar a guarda.
Quando o tempo finalmente voltou a existir, Rafael permaneceu alguns segundos imóvel, deitado ao lado dela, o braço apoiado acima da cabeça, o olhar perdido no teto escuro.
— Eu tenho que ir para a empresa. — disse, enfim.
Valentina virou o rosto para encará-lo.
— Eu sei.
— Se quiser ficar aqui… — ele começou.
— Não. — ela interrompeu. — Vou para o meu quarto. Tenho coisas para arrumar.
Rafael assentiu, respeitando a escolha sem discutir.
Inclinou-se sobre ela e a beijou mais uma vez. Um beijo de despedida. Íntimo demais para ser casual. Contido demais para ser promessa.
— A gente fala depois. — disse.
— Fala. — ela respondeu.
Ele se levantou, vestiu-se com a precisão de sempre e saiu.
Valentina esperou alguns segundos antes de se levantar também.
Vestiu-se com calma. Ajustou o cabelo. Recuperou a postura.
E saiu.
A mansão Montenegro nunca foi segura.
Havia olhos em cada canto. Silenciosos. Atentos. Famintos por falhas.
E ali não foi diferente.
Um par deles acompanhou Valentina deixando o quarto de Rafael e seguindo pelo corredor em direção ao próprio quarto.
Só quando a porta se fechou atrás dela…
os olhos se afastaram.
Por enquanto.
Valentina encostou as costas na madeira e fechou os olhos por um segundo.
O jogo tinha começado de verdade.
E, dessa vez, ela também sabia jogar.

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