O portão da mansão Montenegro se abriu com a mesma solenidade fria de sempre.
Nada ali parecia feito para receber. Tudo parecia feito para lembrar quem mandava.
Valentina observou pela janela enquanto o carro avançava pelo caminho de pedra. As luzes externas acenderam uma a uma, automáticas, impessoais. A fachada surgiu imponente, silenciosa demais para um lugar que já tinha sido palco de tantas ausências.
Ela sentiu o aperto no peito antes mesmo de descer. Não era medo. Era memória.
O carro parou. Moreira desceu primeiro. Abriu a porta. Rafael saiu em seguida, já recomposto, inteiro no papel que aquela casa exigia.
Valentina desceu logo depois.
O hall estava diferente. Sutilmente.
Uma funcionária que ela não conhecia se aproximou com postura impecável.
— Boa noite, senhor Montenegro. — disse, respeitosa. — As bagagens já serão levadas aos quartos.
Valentina franziu levemente a testa. Observou o entorno rápido demais para parecer casual.
— Estranho… — murmurou, mais para si do que para ele.
Rafael a ouviu.
Ela virou o rosto para ele, hesitou meio segundo… e engoliu a primeira pergunta que quase escapou.
— Onde está… — parou. Respirou. — Onde está Clara? — perguntou, corrigindo o tom. — Ela deveria estar aqui para te receber.
A última frase veio com um desdém mal disfarçado.
Rafael percebeu. E sorriu de lado.
— A mãe dela sofreu um infarto. — respondeu. — Clara viajou para a terra dela.
Valentina arqueou uma sobrancelha, claramente surpresa. Depois, soltou um meio sorriso irônico.
— Ela tem família… — comentou, quase consigo mesma.
Rafael riu baixo. — Tem.
Ela deu dois passos à frente, cruzando o hall como quem perde o interesse no assunto.
— Por que perguntou? — ele quis saber.
Valentina não parou. — Por nada. — respondeu. — Achei que ela tivesse nascido de chocadeira.
Passou por ele sem olhar. Rafael sorriu ainda mais.
Subiram a escada em silêncio. O som dos passos ecoava mais do que deveria naquele espaço amplo demais, frio demais.
Valentina já ia virar para o corredor do próprio quarto quando sentiu o pulso ser segurado.
Rafael a puxou com firmeza contida, no alto da escada.
— Você vem comigo.
Ela virou-se de imediato.
— Para onde está me levando? — perguntou, tentando se soltar.
Ele não respondeu. Apenas a puxou.
Valentina o seguiu por dois passos antes de perceber.
— Rafael, eu quero ir para o meu quarto.
Ele abriu uma porta que ela já conhecia muito bem.
— Seu quarto é aqui.
Ela congelou.
— Você está louco. — sussurrou. — Sua mãe vai ver. E sabe muito bem o que—
— Não me importo. — ele interrompeu, já entrando. — Vittória está em um retiro espiritual.
Fechou a porta atrás deles.
Valentina mal teve tempo de reagir antes de sentir o corpo dele à frente, bloqueando qualquer fuga.
— Rafael—
Ele não respondeu.
Apenas a beijou.
Ali mesmo. Encostada na porta. Sem aviso. Sem cuidado excessivo.
Um beijo firme, intenso.
A porta ainda vibrava levemente quando Rafael se afastou o suficiente para encará-la.
Valentina não disse nada. Ainda estava com as costas apoiadas na madeira escura, o peito subindo e descendo rápido demais, os lábios sensíveis demais para fingir normalidade.
O quarto dele era exatamente como ela lembrava. Escuro. Sóbrio. Organizado demais.
— Ninguém entra aqui sem permissão. — Rafael disse baixo, sem tirar os olhos dela.
Valentina engoliu em seco. — Porque… — respondeu, tentando recuperar o fôlego — você sabe a confusão que vamos fazer se passarmos desse ponto.
Ele deu um passo à frente. Depois outro.
— Eu sei e não me importo.
A distância sumiu. Não houve pressa. Só aquela aproximação lenta que fazia o corpo entender antes da cabeça.
Rafael tocou o rosto dela com o dorso da mão. Não foi um carinho delicado. Foi um gesto consciente. Como se estivesse memorizando.
— Desde que você entrou nessa casa… — ele murmurou — nada ficou no lugar.
Não foi pedido ensaiado.
Nem comando.
Foi simples demais para alguém como ele.
Valentina abriu os olhos devagar. O olhar encontrou o dele — intenso, atento, perigosamente presente.
— Rafael… — ela começou, mas parou. Engoliu em seco. — A gente não devia dar esse passo.
Ele não se afastou.
— Eu sei o que parece. — respondeu. — Sei o risco. Sei o que isso pode virar.
O polegar dele desenhou um caminho lento na pele dela, consciente demais para ser distração.
Valentina respirou fundo. O coração batia forte demais para alguém que estava tentando ser racional.
— Você tá pedindo algo que não pode garantir. — ela disse. — E eu… eu não sei se consigo lidar com isso depois.
Rafael inclinou a testa contra a dela, os olhos fechados por um instante breve — raro nele.
— Eu não tô prometendo futuro. — disse. — Tô pedindo agora.
Ela sentiu aquilo como um impacto silencioso.
Agora.
Valentina levou a mão ao peito dele, sentindo o coração firme sob a camisa aberta.
— Você é péssimo pra pedir coisas simples. — murmurou.
— E você é péssima em não aceitar o óbvio quando deveria. — ele devolveu, quase um sorriso.
Ela ficou ali por alguns segundos. Tempo suficiente para pensar em contratos, em Vittória, em tudo que podia dar errado.
E mesmo assim…
Valentina não se afastou.
— Só hoje. — disse, por fim. — Só essa noite.
Rafael abriu os olhos.
O alívio passou rápido demais pelo rosto dele para ser escondido — e desapareceu na mesma velocidade, substituído por algo mais intenso.
— Então vem. — respondeu.
Não houve pressa depois disso.
Nem promessas.
Só a escolha consciente de permanecer — mesmo sabendo que o preço viria depois.

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