Valentina não avisou que estava indo. Foi um impulso simples, quase doméstico demais para o nome Montenegro. Duas caixas elegantes nas mãos, embrulhadas com cuidado. Doces que ela tinha provado mais cedo. Gostou. Pensou nele. E decidiu subir.
Entrou pela recepção da empresa com passos tranquilos, recebendo olhares curiosos — não de estranhamento, mas de reconhecimento. Já não era uma desconhecida ali.
No elevador exclusivo, passou o cartão de acesso que Moreira havia lhe entregue dias antes. O painel acendeu em silêncio. Andar executivo.
Lá em cima, Moreira foi avisado.
— A senhora Valentina chegou.
Ele não precisou perguntar mais nada.
Quando as portas do elevador se abriram, Valentina saiu com um sorriso leve, quase tímido demais para quem carregava o sobrenome Montenegro. Moreira a aguardava na entrada do corredor.
— Boa tarde, senhora.
— Boa tarde. — ela respondeu, educada. — Me desculpa aparecer assim… se ele estiver ocupado, eu volto outra hora.
Moreira sorriu de um jeito contido. Profissional. Mas havia algo de sincero ali.
— Não está. — respondeu. — Pode entrar.
Valentina respirou aliviada. Antes de seguir, estendeu uma das caixas para ele.
— Essas são pra você. — disse. — Doces que vamos oferecer no evento. Escolhi os melhores.
Moreira piscou, genuinamente surpreso.
— Para mim?
— Sim. — ela confirmou, sorrindo. — Os outros são para ele. Vou entrar.
Ele recebeu a caixa com cuidado, quase cerimonial.
— Obrigado, senhora.
Valentina assentiu e seguiu pelo corredor.
Enquanto a observava entrar no escritório do CEO, Moreira pensou, sem conter um sorriso discreto:
O senhor odeia doces.
A porta se fechou atrás dela.
Rafael estava sentado à mesa, no modo absoluto CEO. Camisa impecável, mangas ajustadas, assinatura firme correndo pelos papéis. O semblante calmo de quem controla tudo ao redor.
Mas ele a sentiu antes de ouvir.
Levantou o olhar.
E sorriu.
— Oi… — Valentina disse, parando a alguns passos da mesa. — Estou te atrapalhando?
— Nunca. — ele respondeu de imediato.
Afastou a cadeira levemente para trás, abrindo espaço. Um convite silencioso.
Valentina caminhou até ele e pousou a caixa sobre a mesa.
— Selecionei alguns doces para o evento. — disse. — Queria que você me dissesse o que prefere.
Rafael olhou da caixa para ela.
Ele não era de doces. Nunca foi.
Mas abriu mesmo assim.
Por ela.
Pegou um primeiro. Provou com atenção. Depois outro.
Valentina observava, sentada agora à frente dele, as mãos cruzadas sobre o colo, esperando como quem já sabia a resposta — mas queria ouvir mesmo assim.
— Você acertou em cheio. — ele disse, depois de engolir. — Não é doce demais. Nem enjoativo.
Ela sorriu. Um sorriso satisfeito. Pessoal.
— Fico feliz.
Rafael bebeu um gole de água, ainda observando a caixa.
— Como está indo? — perguntou então.
— Bem. — Valentina respondeu. — A Cíntia é ótima. Tem me ajudado muito.
Ele franziu levemente a testa.
— Cíntia?
Valentina sorriu ainda mais. Daquele jeito que sempre antecedia alguma coisa grande.
Inclinou-se um pouco para frente.
— Bem… — começou, com doçura calculada. — Se eu te contar uma coisa… você promete não surtar?
Rafael a encarou por alguns segundos.
Depois apoiou os cotovelos na mesa, curioso e atento demais.
— Valentina… — disse. — Você já percebeu que essa frase nunca termina em coisa simples, né?
Ela riu baixinho.
— Promete ou não?
Ele suspirou, rendido antes mesmo de saber ao quê.
— Prometo tentar. — respondeu. — Agora fala.
Valentina respirou fundo antes de continuar.
Não por medo.
Por prazer.
Havia algo estranhamente delicioso em contar aquilo a ele. Em dividir o risco. Em ver até onde aquele homem — acostumado a controlar tudo — estava disposto a ir com ela.
— Então… — começou, inclinando levemente o corpo para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. — A Márcia tem me dado trabalho. Muito trabalho.
Valentina deixou o riso morrer.
Endireitou a postura.
— Eu sei. — respondeu, sincera. — E é exatamente por isso que estou fazendo isso do meu jeito.
Rafael a encarou.
— Se eu não fizer agora… — ela continuou — …ela vai tentar me manipular sempre. Vai me empurrar para um canto. Vai me tratar como um acessório temporário.
A voz dela não tremia.
Mas havia verdade demais ali para ser ignorada.
— Eu não sou isso. — Valentina concluiu. — E preciso que ela saiba. Sem confronto direto. Sem escândalo. Só… fatos.
Rafael passou a mão pelo rosto e suspirou.
— Você está certa. — admitiu, enfim. — Mas ainda assim… me avise. Sempre. Se algo sair do controle. Se algo parecer estranho.
Valentina se levantou de repente.
Endireitou o corpo.
Levantou a mão em continência.
— Pode deixar, senhor. — disse, solene demais para ser séria.
Rafael riu.
E foi nesse segundo de descontração que ele estendeu a mão para ela.
— Vem cá. — disse, simples.
Valentina não hesitou.
Foi até ele, aceitou a mão, e antes que pudesse sentar na cadeira ao lado, Rafael a puxou com facilidade para o próprio colo.
O impacto foi imediato.
Ela arfou baixo. Ele segurou firme na cintura dela.
— Rafael… — murmurou.
— Você tem ideia do quanto isso tudo me deixa… — ele começou, a voz baixa, carregada — …orgulhoso e perigosamente atraído?
Valentina sorriu, já sem disfarce.
— Tenho uma leve suspeita.
Ele a beijou.
Sem pressa.
Sem delicadeza exagerada.
Com intensidade e posse suficiente para deixar claro: ele estava ali. Inteiro.
Valentina correspondeu, as mãos subindo pelo pescoço dele, os dedos se perdendo no cabelo. O beijo aprofundou. O mundo corporativo ficou do lado de fora daquelas paredes de vidro.

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