O beijo ainda existia quando o telefone tocou.
Não foi um toque qualquer.
Foi seco. Direto. Profissional demais.
Rafael parou imediatamente.
Não houve suspiro, nem reclamação, nem aquele segundo a mais que normalmente ele roubava do mundo. Ele apenas encostou a testa na dela por um instante — curto demais para ser romântico, longo demais para ser casual — e então estendeu o braço para a mesa.
Valentina percebeu na mesma hora.
Se ele atendeu…
era porque não podia esperar.
Rafael atendeu com uma mão, a outra ainda firme na cintura dela.
— Montenegro. — disse, a voz já outra.
Do outro lado da porta de vidro, a secretária aguardava em silêncio. A ligação não passara por Moreira à toa.
— Senhor Montenegro… — a voz veio contida, respeitosa — …uma ligação de Washington.
Valentina sentiu o impacto antes mesmo de pensar. Washington não ligava por acaso. Washington não esperava.
Ela se inclinou levemente, os lábios próximos ao ouvido dele, e murmurou:
— Pode atender.
Rafael não respondeu a ela. Apenas assentiu uma vez e falou ao telefone:
— Pode passar.
A mudança foi imediata.
O homem que estava ali segundos antes — quente, atento, perigoso — cedeu espaço ao outro. O que o mundo conhecia. O que não vacilava.
— Good afternoon (boa tarde) — disse em inglês, perfeito, sem esforço. — Yes, I’m listening (sim, estou ouvindo).
Valentina ainda estava no colo dele quando a voz mudou de tom. Mais grave. Mais precisa. Menos emoção.
Ela o observou.
As linhas do rosto dele se ajustaram como uma armadura invisível. A mandíbula firme. O olhar focado em algum ponto indefinido à frente. As mãos relaxaram apenas o suficiente para não demonstrar tensão.
CEO nato.
E aquilo… mexeu com ela mais do que devia.
O coração acelerou sem pedir licença.
Erro.
Ela sentiu antes de admitir.
Com cuidado, Valentina se levantou do colo dele. Rafael franziu a testa no mesmo instante, interrompendo a frase no meio, o olhar seguindo o movimento dela.
Ela não saiu.
Apenas se afastou.
Caminhou até a janela de vidro e apoiou as mãos ali, observando a cidade abaixo. São Paulo pulsava — caótica, viva, indiferente ao que acontecia dentro daquele escritório alto demais para sentimentos frágeis.
Ela respirou fundo.
Não posso.
Não posso me apaixonar.
Não posso.
A voz dele continuava atrás dela, firme, em inglês fluente, discutindo números, prazos, interesses que não aceitavam falhas.
— That timeline is not negotiable (esse prazo não é negociável).
— No, I won’t compromise governance for speed (não vou comprometer governança por pressa).
— Then we don’t move forward (então não avançamos).
Ela fechou os olhos por um segundo.
Aquilo era o mundo dele.
E era sedutor demais.
Para fugir do próprio pensamento, Valentina se afastou da janela e começou a caminhar pelo escritório. Passou os dedos pela estante. Observou prêmios, placas, reconhecimentos internacionais.
Rafael Montenegro não tinha chegado ali por acaso.
Parou diante de uma fotografia em especial.
Rafael e Lucas. Mais novos. Uniformes da faculdade. Um jogo qualquer, mas o sorriso… o sorriso era outro. Aberto. Desarmado. Humano.
Valentina sorriu sem perceber.
— Então é assim que você era… — murmurou, baixinho, só para si.
Colocou a foto de volta com cuidado.
Ao lado, notou uma porta entreaberta. Não era o banheiro. Nem a sala de reuniões menor.
Era a sala de descanso.
Ela hesitou por meio segundo — e entrou.
O espaço era simples demais para alguém como ele. Uma cama larga, uma poltrona, iluminação baixa. Um lugar que não aparecia em fotos, não recebia visitas, não fazia parte da imagem pública.

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