A chuva ainda batia forte contra o vidro quando tudo finalmente desacelerou.
Valentina estava deitada sobre o peito de Rafael, a pele quente contrastando com o ar mais frio que entrava pelas frestas da janela. O coração dele batia firme sob a orelha dela, num ritmo constante, seguro — quase perigoso demais para alguém como ele.
Rafael passava a mão devagar pelas costas dela, um gesto distraído, íntimo, como se o mundo tivesse encolhido até aquele quarto escondido no alto da cidade. Os dedos desenhavam caminhos lentos, sem pressa, como se quisesse memorizar cada centímetro.
Valentina suspirou fundo.
Não era um suspiro de cansaço. Era de rendição contida.
— Eu tenho que ir… — murmurou, a voz baixa, preguiçosa, contrariada.
Rafael não parou o movimento da mão. Nem respondeu de imediato.
— Pode ficar aqui. — disse, tranquilo. — Até eu ir embora.
Ela fechou os olhos por um segundo, absorvendo a proposta como quem prova algo bom demais para recusar… e exatamente por isso perigoso.
Suspirou outra vez.
— Bem que eu queria… — admitiu. — Mas ainda tenho que terminar de ajustar os convites.
A mão dele subiu um pouco mais, firme, quase possessiva sem perceber. Ele se inclinou e beijou a testa dela com cuidado, um contraste estranho com tudo o que tinham sido minutos antes.
— Tudo bem. — respondeu. Sem cobrança. Sem joguinhos.
Valentina se apoiou no colchão e se levantou devagar.
E foi aí que Rafael percebeu.
O corpo dela, nu sob a luz difusa que entrava pela janela, parecia diferente agora. As curvas suaves, a linha do quadril, o jeito como ela se movia sem saber que estava sendo observada. Não havia provocação ali.
Só presença.
Algo nele apertou.
Rafael franziu levemente a testa, confuso com a sensação estranha que se instalava no peito — aquela mistura perigosa de desejo, cuidado e algo que ele não gostava de nomear.
Valentina não percebeu.
Caminhou até o banheiro e tomou um banho rápido, como se estivesse fugindo do próprio desejo de ficar. A água caiu forte, abafando a cidade lá fora.
Quando saiu, já vestida, o cabelo ainda úmido, encontrou Rafael parado diante da janela.
Ele estava só de cueca, os braços cruzados, o olhar fixo na cidade cinza e molhada. Um retrato perigoso demais para alguém que dizia viver no controle.
Valentina sorriu.
— Isso é tentador… — comentou, aproximando-se sem fazer barulho.
Foi até ele e o abraçou por trás, os braços deslizando pela cintura, o rosto apoiando-se nas costas quentes. Rafael fechou os olhos por um segundo antes de reagir.
Virou-se de uma vez.
O beijo veio ali mesmo, sem aviso, sem medo de portas, paredes ou câmeras. Um beijo profundo, firme, como se nenhum dos dois quisesse realmente ir embora.
As mãos dela alisaram o peito dele, lentas, conscientes.
— Eu tenho que ir… — repetiu, a voz já menos convincente.
Rafael encostou a testa na dela.
— Ok. — respondeu. — Mas me avisa se qualquer coisa acontecer.
Ela assentiu, séria agora.
— Aviso.
Ele a beijou mais uma vez, mais calmo, mais longo, como quem segura algo que não quer soltar completamente.
Valentina pegou a bolsa, respirou fundo e saiu.
Rafael ficou ali.
Sozinho.
Observando a chuva cair sobre São Paulo, sentindo algo novo se instalar dentro dele — algo que não obedecia regras, contratos ou estratégias.
O escritório já não era o mesmo quando Rafael voltou a ocupá-lo sozinho.
A chuva ainda riscava os vidros, mas agora o céu estava mais escuro, mais pesado — como se São Paulo sentisse o que ele tentava organizar por dentro. O terno havia substituído a pele exposta, a postura relaxada dera lugar ao homem que todos conheciam. O CEO. O estrategista. O Montenegro que não errava.
Mas havia algo fora do lugar.
Sobre a mesa lateral, quase esquecida, estava a caixa de doces.
Rafael passou por ela sem olhar… e depois voltou dois passos.
Parou.
Observou a embalagem elegante, o laço discreto, o cuidado evidente. Não era sobre açúcar. Nunca tinha sido. Era sobre o gesto. Sobre ela ter aparecido sem avisar. Sobre ter invadido o espaço dele sem pedir permissão — e ter sido bem-vinda.
Ele abriu a caixa de novo, pegou um doce qualquer, girou entre os dedos e sorriu de canto, como se estivesse cometendo um pequeno delito pessoal.
— Desde quando você come doces?
A voz de Lucas veio da porta, casual demais para alguém que já estava ali há alguns segundos observando a cena.
Rafael ergueu o olhar, o sorriso sumindo rápido demais.
— Desde hoje. — respondeu.
Lucas arqueou uma sobrancelha e entrou no escritório, fechando a porta atrás de si.
— Hoje? — repetiu, caminhando até a mesa. — Isso é histórico.
Rafael pousou o doce de volta, cruzou os braços.
— Valentina trouxe.
Lucas congelou por meio segundo.
— Valentina esteve aqui? — perguntou, agora com interesse real.


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