No dia seguinte Augusto saiu cedinho para o trabalho, prometendo voltar mais cedo. Antes de sair nos beijamos como um casal de namorados adolescente. Apesar de ele me pedir para ficar em casa, eu tinha planos, precisava fazer uma coisa que vinha adiando.
Nos últimos dias eu tinha trabalhado feito uma louca. Ícaro percebia que eu estava diferente, mas não tocava no assunto. A empresa dele crescia em uma velocidade incrível e eu precisava me desdobrar para ajudar a gerenciar a demanda de pessoal, para que tudo não entrasse em colapso. Convidei os dois para o meu casamento; Ícaro só iria por causa da filha, que ficou empolgadíssima com a ideia.
Ainda havia a questão do meu ex-marido. Minha cabeça rodava relembrando a nossa aproximação no ínicio do namoro, o período em que ele trabalhou para o meu pai, a família dele. Em alguns momentos eu não acreditava que ele pudesse ter me enganado o tempo todo. Mas precisava ser sincera comigo mesma e aceitar a realidade, nosso casamento foi bom por cerca de um ano, mais ou menos, até começarmos a falar de filhos. Quem falou primeiro foi ele, tinha o sonho de ser pai. Eu também queria ser mãe, mas queria esperar um pouco mais. Vieram as reclamações eternas, os pedidos de desculpas, outras reclamações, as brigas, as acusações. Foi pior do que eu queria lembrar.
Todas as humilhações e gritos eu colocava na conta do estress, acreditando que um dia tudo ia melhorar.
A família, o almoço de domingo na casa da mãe, a grande reforma da casa — que ela dizia ter sido paga com dinheiro de herança — o irmão rico (aquele que o Carlos dizia ter negócios, mas nunca explicava quais), a irmã que comprou a floricultura embora na época estivesse desempregada. E então o caso com Karen. Minha irmã.
Tudo isso me mostrava como havia sido cega.
Antes de decidir o que fazer, precisava conversar com a minha irmã, tinha que ouvir da boca dela qual fora a participação naquela sujeira toda.
Mais uma vez eu estava na porta da casa de Karen. Tinha adiado essa conversa e agora me via diante de uma questão: ou Karen sabia de tudo, ou era tão ingênua quanto eu. Na verdade não tinha como ela ser ingênua, minha irmã era bem mais esperta, ou seja, ou ela sabia de tudo.
Estava na hora de descobrir a verdade.
— Nossa, duas visitas em um mês — disse ela assim que me viu na sala. Ainda tinha uma cara cansada, mas estava arrumada e maquiada.
— Você sabia que o Carlos rouba da empresa desde o dia em que começou a trabalhar para nosso pai? — perguntei sem preâmbulo, não estava com paciência para conversas amenizadas.
— Como? Do que você está falando? — Karen perguntou. Podia ser impressão minha, mas ela parecia um pouco alarmada.
— Você entendeu bem. Você sabia? Sabia que os problemas da empresa eram culpa do Carlos, que ele usurpou cada centavo que pôde, que passou anos me humilhando e me diminuindo com a desculpa de que tinha o sonho de ser pai, mas só queria mesmo fazer um caixa dois e sustentar essa família maldita que passou anos vivendo do meu dinheiro. Você sabia? Me fala, Karen, sem jogos, sem vitimismo, fala a real.
Karen me olhou em silêncio. Eu não sabia o que se passava na cabeça dela, se procurava uma desculpa ou se realmente estava chocada com tanta informação.
— Isabella, o que você está fazendo? Por que quer saber coisas que não são da sua conta? — ela falou baixo, quase um resmungo.
— Como não é da minha conta? É a minha vida, o meu dinheiro, esta casa — gesticulei — tudo foi roubado. Olha para mim! Você sabia? Fala! Tenha coragem uma vez na vida!
— Ele não é quem você pensa, ele é perigoso. Vai embora, esquece isso; você está de casamento marcado, por que não pode viver a sua vida e deixar o passado em paz? — ela falou ainda baixo, como se tivesse medo.
Era uma confirmação, ela sabia. Karen sabia de tudo. Não era só uma traição — era mais.


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