"Isabella"
— Karen? — sussurrei, com medo de ser uma alucinação.
— Sou eu — ela falou baixinho, parecendo aliviada. — Me ajuda, por favor. Preciso da sua ajuda.
— Onde você está? O que aconteceu? — perguntei, o coração disparado, as mãos suadas.
— Vou te mandar o endereço, mas venha sozinha. Por favor, não fala para ninguém.
— Você fugiu? — perguntei, assustada com o tom de voz dela.
— Por favor, me ajuda. Eu vou mandar o endereço e explicar tudo. — Ela chorava no telefone.
Karen desligou. Logo em seguida chegou uma mensagem com o endereço, de um número diferente daquele que tinha ligado.
Ela parecia muito assustada. Olhei em volta, o motorista esperava dentro do carro e, um pouco mais atrás, um dos seguranças fora do carro.
Karen pediu que eu fosse sozinha e que não contasse nada a ninguém. Eu sabia que não era uma ideia inteligente, mas não queria correr o risco de perdê-la de vez, de alguma coisa dar errado.
Sem pensar muito nas consequências, atravessei a rua correndo e entrei numa padaria com duas saídas. Saí pela outra e peguei o primeiro ônibus que apareceu.
Não vi o carro dos seguranças me seguindo; tive certeza de que não sabiam para onde eu ia. Procurei o endereço na internet e anotei num papel da bolsa, era longe, quase duas horas de ônibus, para outra cidade.
Desliguei o celular e segui para o destino.
Por causa do trânsito levei mais de duas horas para chegar. Sentia o coração na boca, agoniada por ter demorado tanto e com medo do que iria encontrar. Depois de tanto tempo desaparecida, eu não fazia ideia de como Karen estava.
O endereço era uma casa velha, numa rua quase deserta. Do ponto de ônibus até lá tive que andar cerca de vinte minutos. Se não houvesse indícios de vida aqui e ali, diria que a rua estava abandonada, muitas das casas pareciam vazias, em evidente deterioração.
Ninguém me seguiu e meu celular continuava desligado. A casa era a pior de todas, o portão estava enferrujado, as janelas com vidros quebrados e o mato crescido. Por um instante pensei que tinha sido enganada, pior do que pensar que encontraria algo horrível ali era não encontrar nada. Então a porta velha de madeira rangeu e, por uma fresta, vi Karen fazer sinal para eu entrar.
Senti alivio e entrei rápido com medo de alguém me ver. Ela trancou a porta assim que passei e eu pude abraçá-la, senti o peso sair dos meus ombros, ela estava viva, e isso era o que importava no momento.
— Vem, vamos para outro cômodo — disse ela, pegando minha mão e me arrastando pela casa. — Aqui é horrível.
Se fora a casa era ruim, dentro era pior. Pensar que Karen havia passado as últimas semanas ali parecia absurdo, mas era a verdade.
As janelas fechadas deixavam o ambiente em penumbra; a luz era fraca demais para o lugar sujo, velho e decadente, que parecia desabar a qualquer momento.
Mas Karen vivia, pelo visto, num cômodo nos fundos que era um pouco melhor. Lá, meu sobrinho dormia num bercinho, a coisa mais nova e limpa do lugar, tinha uma aparência saudavel e bem cuidada.
— Vou fazer um café. — O espaço era uma espécie de sala e cozinha.
— Você estava aqui o tempo todo? — perguntei.
Karen ficou em silêncio por um momento, mexendo nas coisas do café. Estava muito diferente da última vez que a vi, o cabelo preso, sem brilho, mais magra; uma mulher cansada, quase irreconhecível, a pomposa irmã de antes havia desaparecido.
— Não fiquei aqui o tempo todo — respondeu ela, suspirando —. Estava em outra casa, mais exposta. Vim para cá porque precisava fugir. Ele não me deu escolha.
— O Carlos? — perguntei, já sabendo.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido