Até os dias de hoje, aquilo permanecia um enigma.
Ao notar que Natália havia despertado, mas estava com o olhar vago e confuso fitando o teto, Tainá quebrou o silêncio:
— Acordou? Está pensando em quê?
— Ah, nada demais. — Natália voltou a si.
Ela reparou que a embalagem do soro estava vazia, percebendo que sua medicação intravenosa tinha terminado.
O médico lhe receitara os medicamentos para manter a gestação segura e a aconselhara a ter cuidado com as oscilações de humor.
Enquanto Natália esteve adormecida, Tainá havia providenciado roupas limpas e trocado a veste da amiga.
Depois disso, Tainá e Fernanda tinham que ir ao funeral. O plano era deixar Natália em casa para repousar antes de seguir.
Porém, Natália se opôs. Ela precisava ir ao enterro, ela queria... acompanhar Fábio em sua última viagem.
Quando chegaram, o velório já estava nos instantes finais. Todos que pretendiam prestar condolências já o haviam feito, deixando flores e expressando seus pêsames aos familiares.
Melissa estava lá, mas, por conta de sua gravidez, permanecia sentada.
Mário, Sérgio e Marcelo auxiliavam na coordenação da cerimônia.
Tudo ocorria com fluidez, permeado por uma tristeza contida, solene e pesada.
As três se aproximaram das portas da câmara ardente.
Por coincidência, Mário, Sérgio e Marcelo também aguardavam ali para recepcionar quem chegasse.
Ao vislumbrar Natália, Sérgio deu um passo curto à frente:
— Como se sente? Está tudo bem com seu corpo?
Natália limitou-se a uma resposta ríspida, assumindo um tom de distanciamento:
— Sim.
O semblante de Sérgio fechou involuntariamente. Ao presenciar aquela atitude de Natália, ele acreditou apenas que a jovem ainda guardava rancor pelas brigas recentes.
Só que agora manifestava sua rebelião de uma maneira distinta.
Antes, foi com escândalos; agora, com gélida indiferença.
Provavelmente a própria Natália também sabia que, devido ao momento delicado, armar uma confusão seria fora de propósito, inapropriado.
Contudo, Natália ainda continuava fustigando Melissa.
Sendo assim, Sérgio não disse mais nenhuma palavra, trocando a postura por uma feição ainda mais apática.
Natália pouco se importou, simplesmente continuou a caminhar.
Entretanto... Tainá e Fernanda destilaram um virar de olhos na direção de Sérgio.
Enquanto passavam pela entrada do velório, Tainá ainda soltou:
— Cachorro bom não fica atravancando o caminho.
Não nomeou ninguém, mas... estava mais do que óbvio a quem se dirigia.

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