“Ettore Bianchi”
Observo a lágrima solitária escorrendo pelo rosto de Liz, caindo sobre o contrato recém-assinado. A satisfação me faz sorrir.
Passei mais de dois anos ao lado dela. Já a vi chorar antes, claro. Mas é a primeira vez que não sinto o impulso de enxugar suas lágrimas.
Há alguns anos, eu teria movido montanhas para evitar sua dor. Hoje, cada gota que cai é uma pequena vingança.
— Parabéns, piccola — digo, deixando o apelido sair com um veneno sutil. — Acabamos de dar o primeiro passo para o nosso futuro.
Ela finge coçar os olhos antes de levantar o rosto para me encarar.
Aqueles mesmos olhos que, um dia, prometeram amor eterno, agora estão vermelhos, vulneráveis. Exatamente como os meus estavam da última vez que nos vimos.
Perfeito.
— Tudo pronto, Max? — pergunto, me levantando com calma.
— Quase — ele responde, estendendo uma pasta para Liz. — Aqui está seu cronograma até o casamento. Provas do vestido, detalhes da cerimônia…
Ela apenas assente, sem dizer nada, aceitando o conteúdo sem reclamar.
Ignoro o olhar perdido e tiro do bolso uma pequena caixa de veludo.
— Isso agora é seu — anuncio, abrindo a caixa com o anel.
Pego sua mão e deslizo o anel em seu dedo. A pele dela continua suave. Familiar.
Por um segundo, uma lembrança antiga ameaça me distrair. Mas a espanto como quem afasta uma mosca inconveniente.
— Perfeito — murmuro, soltando sua mão. — Temos um jantar esta noite. Nossa primeira aparição oficial como casal.
— Posso ir embora? — ela pergunta, ignorando o que digo. — Preciso resolver algumas coisas.
A encaro por alguns segundos. Parte de mim quer negar, só para vê-la engolir o orgulho. Mas não posso parecer controlador tão cedo.
— Espero que não cometa nenhuma besteira — digo, voltando a me sentar. — Passarei na sua casa às sete.
— Certo — ela responde, erguendo-se rapidamente. — Com licença.
Max se apressa para acompanhá-la até a porta, e enfim fico sozinho. Estico o pescoço, sentindo a tensão nos ombros, e deixo escapar um suspiro pesado.
Era isso que eu queria desde que soube do maldito testamento. Desde o momento em que comecei a planejar como faria Liz se tornar minha esposa.
Então, por que ainda não me sinto completo?
— Parabéns, conseguiu o que queria. Está satisfeito? — Max pergunta ao voltar para a sala.
— Ainda não — respondo, me levantando e indo até o bar no canto. — Isso foi só o começo.
Enquanto me sirvo uma dose de whisky, Max me observa com aquele olhar que já conheço bem: metade preocupação, metade desaprovação.
— Ettore, é isso mesmo que você quer? — ele pergunta quando volto a me sentar. — Mesmo sendo por conveniência, casamento é algo sério.
— Você já sabe a resposta — digo com calma, levando o copo à boca. — E, além disso, já está feito. Liz assinou.
— Sim, mas…
— Não tem “mas”, Max — corto, seco. — Você não estava lá. Não viu o que eu vi. Se fosse você, se estivesse no meu lugar, vendo a mulher que ama nos braços de outro homem, sorrindo, dizendo que nunca te amou… faria o mesmo.
Termino o whisky de uma vez, como se isso apagasse a lembrança.
Liz nem sequer tentou explicar. Nem fingiu constrangimento. Só disse que nunca me amou, que eu era uma distração. Que aquele homem podia dar o que eu nunca conseguiria.
Então sorriu, pegou na mão dele e foi embora, me deixando sozinho naquele maldito jardim onde eu planejava pedi-la em casamento.
Dois dias depois, eu estava em um avião para Londres, pronto para esquecer Liz Montesi e tudo o que ela representava para mim.
— Só estou dizendo para ter cuidado — Max insiste, me puxando de volta. — Vingança é um prato que se come frio, mas pode envenenar quem o serve.
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