Lúcia Mendes
A manhã se arrastava feito uma reunião com slide sem fim. Eu estava na minha mesa, mexendo nos relatórios da apresentação em Milão, mas com a cabeça... longe. Meus olhos insistiam em correr para a cadeira de Nate.
Vazia.
Respirei fundo, tentando focar. Mas era impossível não notar a ausência de Nathaniel. Ele não apareceu para trabalhar, e o silêncio que antes eu adorava, agora era ensurdecedor.
Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nenhum comentário de corredor. E isso... não era normal.
Levantei discretamente e caminhei até a mesa de Teresa, que estava digitando algo no computador, como se não existisse nada mais importante no mundo. Ela usava óculos de armação vermelha e tinha um coque levemente torto no topo da cabeça, típico sinal de que já era o segundo café extra forte da manhã.
"Teresa...", comecei com um tom casual, apoiando o braço na lateral da divisória. "Você sabe sobre o senhor Meyer?"
Ela levantou os olhos e depois os ombros. "Até agora, não. Ele não avisou nada."
"É. Bem incomum." Mordi o lábio inferior, tentando parecer distraída. "Será que aconteceu alguma coisa?"
Antes que ela respondesse, a porta do escritório se abriu no final do corredor. Jones surgiu ao lado de um homem alto, bem-vestido, de blazer cinza-escuro e expressão séria. Conversavam em tom baixo, mas a linguagem corporal dos dois dizia tudo: havia tensão no ar.
Ambos caminharam até perto de onde estávamos. Jones fez um leve aceno com a cabeça, como sempre, e o outro homem, com um charme e um sorriso educado, também nos cumprimentou com um "bom dia" tão elegante que parecia treinado.
"Bom dia," respondemos quase em coro, e eu segui os dois com os olhos até o elevador.
Quando as portas se fecharam e Jones voltou, ainda com a expressão carregada, me virei para Teresa com as sobrancelhas arqueadas.
"Quem era aquele?"
Ela se inclinou um pouco mais para perto, como se aquilo fosse confidencial demais para ser dito em volume normal.
"Enzo Kendrik. Advogado de elite, só lida com nomes grandes. E, pasme, é um dos raros que o CEO considera amigo de verdade."
"Ah... então aconteceu alguma coisa mesmo." Cruzei os braços, mais curiosa do que deveria.
Teresa olhou em volta antes de continuar, num tom ainda mais baixo.
"Olha... não me entenda mal, eu também não sei de tudo, mas dizem que rolou um escândalo ontem à noite. Algo com a ex-mulher dele."
"Ex-mulher?" franzi a testa, surpresa real. "Ele já foi casado?"
"Pois é. E a mulher, segundo as más línguas, é o próprio caos disfarçado de salto alto. Abandonou tudo, inclusive a filha, em troca de dinheiro. Mas agora parece que está tentando se reaproximar... e não da melhor maneira."
Meu estômago revirou. "Ele tem uma filha?"
"Sim... uma menininha, acho que tem uns cinco anos. Fofinha demais, dizem. Vive com ele. E a mãe, que sumiu por anos, apareceu ontem num restaurante e fez um escândalo na frente da criança. Uma baixaria completa."
"Meu Deus..." levei a mão aos lábios, horrorizada.
"Pois é. E pelo que eu soube, ele teve que retirar a mulher à força. A coitada da menina ficou traumatizada."
"Isso é... horrível."
Teresa assentiu, mas logo se deu conta do que tinha falado.

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