Nathaniel Meyer Donovan
A tensão começou no segundo em que Gordon abriu aquele maldito sorriso.
Ele indicou os assentos com um gesto elegante, convidando Lúcia para sentar-se à sua direita. Antes que ela se movesse, cruzei à frente e ocupei o espaço ao lado dela. Entre os dois. Não por acaso. Eu queria... precisava... que ele soubesse.
Ela não está sozinha.
A sala era um reflexo do próprio Gordon: cara demais, fria demais, e com um ego pingando nas paredes. Mas Lúcia… Lúcia era o único ponto de luz ali dentro. Vestida com aquele blazer acinturado, postura impecável, mesmo com o pé ainda machucado, ela se tornou o centro da sala sem nem tentar.
"Então, senhorita Mendes," Gordon começou, cruzando as pernas com uma calma calculada, "o que tornaria a DRTech uma candidata tão… excepcional a ponto de merecer meu tempo e o meu dinheiro?"
A pausa antes de "excepcional" e o tom carregado na palavra "meu" fizeram meus dedos se fecharem sob a mesa, como se tentassem conter o impulso de responder por ela ou de atravessar a mesa e fazê-lo engolir cada sílaba com aquele sorriso maldito.
Lúcia, como sempre, manteve a compostura. Abriu o notebook, destravou os gráficos, e começou a falar. Clara. Firme. Profissional.
"Como diretora de relações-públicas, meu foco tem sido posicionar a DRTech estrategicamente nos principais polos de inovação da Europa. Nosso plano de expansão foi construído com base nas lacunas identificadas em automação e gestão de dados, áreas onde muitas empresas ainda enfrentam desafios. O diferencial da DRTech está na forma como comunicamos e entregamos soluções personalizadas, com foco em escalabilidade, relacionamento próximo e suporte contínuo. Já estamos em fase de integração com parceiros no sul da Alemanha e na Bélgica, o que consolida nossa entrada no mercado europeu com solidez e previsibilidade de retorno."
Ela falava, e ele a devorava com os olhos. Um desgraçado encantado, não pelas projeções, mas pela boca que as proferia.
Minha mandíbula estava travada. Eu queria arrancar os olhos dele. Queria enfiar um pendrive no crânio dele com todos os relatórios, só pra ver se ele conseguia focar no projeto e não no decote da minha mulher.
Minha mulher. Foda-se se ainda não era oficial.
Apertei a caneta com mais força do que devia e me inclinei.
"Além da solidez do plano de crescimento, senhor Gordon, é importante ressaltar o histórico da DRTech em resultados consistentes mesmo em cenários adversos. Temos uma base sólida no Brasil e estamos prontos para alianças estratégicas com empresas europeias. Não buscamos apenas investimento, buscamos conexões com inteligência de mercado."
Ele me olhou, finalmente, como se lembrasse que eu estava ali. Sorriu. Um sorriso tão falso quanto a porra da gravata de seda dele.
Fez algumas perguntas técnicas. Lúcia respondeu à maioria com brilhantismo, e quando precisei complementar, o fiz com firmeza, mantendo o foco, mesmo que minha vontade fosse levantar da cadeira e arremessar a pasta na cara dele.
Ao final, Gordon inclinou-se levemente para trás, unindo as mãos como quem pondera. "Foi uma apresentação sólida. Prometo dar a devida atenção ao material. Entrarei em contato assim que possível."
Nos levantamos. Lúcia estendeu a mão com um sorriso formal, e ele a segurou por um segundo a mais do que o necessário. Mas foi o que veio depois que quase me fez perder a porra do controle:

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratando um CEO como Acompanhante