Lúcia Mendes
Nate deu um passo pra dentro, mas eu não me movi.
O médico voltou, ajeitando os óculos, e começou a passar um antisséptico nos cortes do meu braço. Ardeu como o inferno, mas nem pisquei. Meu olhar estava cravado nele. Nele. Nate Donovan.
"Eu sinto muito por isso", ele disse, a voz grave.
Eu ri, balançando a cabeça, mas não respondi. Não na frente do médico. Não com um estranho vendo minha vontade de xingar até ficar sem voz.
A verdade é que a culpa não era só dele. Essa confusão já existia antes dele aparecer. Eu que escolhi entrar na porcaria daquele site. Eu que já estava atolada com Célia e Eduardo. Ele só... piorou tudo. Foi a cereja do meu bolo de caos.
"Queria poder ter impedido", ele continuou, firme. "Se eu soubesse que eles ainda estavam no prédio, não teria deixado você sair sozinha."
Ri de lado, amarga.
"Não sabemos como, mas eles conseguiram fugir", ele prosseguiu. "Assim que terminar aqui, Enzo e eu vamos com você à delegacia pra abrir o boletim de ocorrência e..."
"Não."
Ele franziu o cenho. "Como é que é?"
O médico parou de mexer, desconfortável. Nate olhou pra ele.
"Doutor, pode nos dar um minuto?"
O homem hesitou, olhou entre nós e assentiu. "Com licença."
Assim que a porta fechou, Nate estourou:
"Que porra você tá pensando em não querer processar esses dois? Tá ficando louca agora?"
Desci da maca, ficando de frente pra ele.
"Não vou fazer isso porque não vai dar em nada. Ou você não percebeu que estávamos no andar com as câmeras quebradas há mais de uma semana? Acha que isso não foi premeditado?"
Ele deu um passo pra trás, surpreso. "O que você..."
"Claro que não sabia, senhor Donovan. Porque, mesmo como 'assistente', você não se misturava com os outros funcionários. Só falava comigo e com os seus. Eu converso com todos. Eu sei que aquele andar não tem câmeras. Eles planejaram tudo. E eu sou só um recado pra você. Queria ser? Não. Mas isso não importa."
Cruzei os braços, encarando-o.
"O que você deve prestar atenção é que essa empresa ainda tem muitos aliados de Eduardo e Célia. Se quiser mantê-la, vai ter que ser mais esperto do que eles. Eu não fui… mas agora estou alerta. E o senhor deveria ficar também."
Ele deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre nós.
"Para de me chamar de senhor. Sou Nate pra você."
Meu coração acelerou, mas não deixei transparecer. "Não. Você é meu chefe, e eu vou te tratar como todo mundo."
Aquilo pareceu atingi-lo como um soco. Seus olhos estreitaram, e então ele ergueu a mão, segurando minha nuca. O toque foi firme, quente, mas sem brutalidade. Era posse.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratando um CEO como Acompanhante