Nathaniel Donovan
Não importava o quanto eu tentasse manter a expressão neutra, por dentro, eu estava queimando.
Os cortes no rosto dela não eram profundos, mas cada marca parecia um soco direto no meu peito. Lúcia saía da sala da enfermaria com a cabeça erguida, ombros retos, como se não tivesse acabado de ser atacada no próprio local de trabalho.
E, por algum motivo, isso só me fazia admirá-la mais… e querer ainda mais protegê-la.
Mantive-me a alguns passos atrás, observando-a atravessar o corredor. Ela não olhou para trás uma única vez. Orgulho e raiva, lado a lado, sustentando cada passo.
Foi então que vi Enzo e David parados diante de uma das salas de reunião. Eles a cumprimentaram brevemente. Enzo abriu a porta e entrou com ela, deixando-me do lado de fora com David.
"Como você tá?" ele perguntou, me medindo como se tentasse decifrar até minha respiração.
"Pronto pra achar o Eduardo e acabar com a vida daquele desgraçado", respondi sem rodeios.
David soltou um riso curto, quase sem humor. "Achei que ia dizer algo assim."
Cruzei os braços, o olhar ainda preso na porta fechada. "Ela disse que ele ainda tem aliados aqui dentro."
Ele entendeu na hora. "Quer que eu…?"
"Todos investigados, discretamente", cortei. "Rastreiem as chamadas dos telefones da empresa. Se qualquer um deles entrar em contato com Eduardo ou Célia, eu quero saber. A segurança cibernética também precisa ser auditada do zero. E todos os acessos internos… alterados agora."
David assentiu, já mentalizando a cadeia de ordens. "Dos acionistas ao chão de fábrica?"
"Todos", respondi sem tirar os olhos da porta.
"Vou implementar isso agora. Não se preocupe Nate, vamos achá-los e poderá fazer justiça."
"Nem sei se é isso que quero. Só quero colocá-los atrás das grades, para ter certeza que eles não terão como tocá-la de novo."
"Eles não vão. São espertos demais. Eles aproveitaram a brecha que tinham, mas agora, sabem que o cerco fechou."
"Sim, eles deram a última cartada para me apavorar, só não imaginaram que ela iria reagir."
"Disseram que eles saíram acabados também. Dois contra um e ela conseguiu se defender. Quem a vê assim, tão baixinha, não imagina..." ele concordou.
Sua mulher era mais forte do que ele imaginava. Ela não se intimidava, não se deixava abater.
Ele deu um leve tapa no meu ombro antes de se afastar. "Vou começar a providenciar o que me pediu..." e foi aí que, sem querer, deixei escapar:
"Ela disse que não quer mais…"
David me olhou de lado, rápido, como quem fareja sangue. "E isso vai te impedir?"
Respirei fundo, mantendo o tom frio. "Não. Mas… não achei que chegaria a esse ponto."
Ele riu sem humor. "Eu te avisei. Mas você é bem grandinho pra arrumar as merdas que faz."
Assenti, sentindo o peso se instalar no meu peito como chumbo. "Eu sei."
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, me estudando, antes de soltar:
"Você gosta mesmo dela."
Não hesitei. "Mais do que eu gostaria. Mais do que deveria." Olhei pro chão por um instante, depois voltei a encará-lo. "E isso a coloca ainda mais em perigo."
David soltou um suspiro lento. "Quando a Yolanda souber… o inferno vai ficar ainda pior."

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