Lúcia Mendes
O corredor parecia mais longo do que eu lembrava.
Cada passo latejava nos meus músculos, como se meu corpo quisesse me lembrar de cada segundo da briga. O ombro ardia onde Célia tinha me empurrado contra a parede, o corte no braço latejava com a batida do meu coração, e o rosto… bom, o rosto pulsava a cada movimento.
Abri a porta da minha sala e inspirei fundo, me forçando a ignorar a dor. Peguei a bolsa, mas hesitei. Não podia simplesmente ir embora sem antes… ver o estrago real.
Guardei a pasta na mesa, ajeitei a alça no ombro e saí, indo direto para o banheiro.
A luz fria piscou quando entrei, e por um segundo pensei em desistir. Mas me obriguei a encarar o espelho.
E lá estava.
O reflexo mostrava o rosto arranhado, manchas vermelhas subindo pela pele, um leve inchaço no canto do lábio. Respirei fundo, segurando a borda da pia para não ceder ao impulso de esmurrar o espelho.
Eu precisava pensar em como esconder aquilo da minha mãe. Ela não podia ver. Não com a saúde tão debilitada.
Peguei minha bolsa, revirei até achar a maquiagem e comecei a cobrir as marcas. Base, corretivo, pó… inútil. O estrago ainda estava ali, estampado.
“Ok… pensa, Lúcia… você é desastrada, vive se batendo… ela pode acreditar que você caiu. É. Uma queda. Isso vai funcionar.”
Respirei fundo, joguei tudo na bolsa e saí, mas mal dei dois passos e esbarrei em alguém.
Braços firmes me seguraram antes que eu tropeçasse.
“Tá tudo bem?” Nate me olhou de cima a baixo, como se procurasse por novas feridas.
Assenti com um sorriso forçado. “Claro.”
“Claro…” ele repetiu, nada convencido.
“E a Eliza? Não deveria estar cuidando dela?” perguntei.
“A babá substituta chegou. Ela está segura, na minha casa.”
Assenti, mantendo a voz neutra. “Então, chefe, eu preciso tirar o resto do dia de folga… diante de tudo que aconteceu. Sei que não vai se incomodar.”
O maxilar dele se contraiu.
"Já falei pra não me chamar de chefe."
"E você precisa parar de fingir que é menos do que realmente é."
Ele bufou, segurou minha mão e me puxou suavemente.
"Eu vou te levar pra casa."
"Não, Nate, não é apropriado."
"Não me importo. Quero ter certeza de que você está bem e segura."
Tentei recuar, mas ele se inclinou, e o beijo veio inesperado. Não era possessivo como antes, era calmo, quente… quase um pedido mudo de desculpas pelo que o mundo estava fazendo conosco.
"Para de tentar fugir de mim, chaveirinho. Não vou deixar."
Revirei os olhos, bufando, mesmo sentindo o estômago revirar com aquele calor perigoso.
"Não pode fazer isso, é assédio, sabia?"
"Estou assediando minha namorada então? Só porque dei um beijo nela?" O olhar dele era divertido, enquanto eu… estava atônita.

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