Nate Donovan
O motor do Porsche vibrava sob minhas mãos, mas eu estava imóvel, encarando a fachada da casa dela como se pudesse atravessá-la com o olhar.
A ligação tinha acabado, mas a voz dela ainda ecoava na minha cabeça.
"Eu vou pensar."
Pensar.
Como se isso fosse uma escolha.
Lúcia não entendia que, a partir do momento em que Eduardo e Célia colocaram os olhos nela, não havia mais espaço para indecisões. Ou ela estava sob a minha proteção, ou seria caçada. E eu não ia deixar isso acontecer.
Peguei o celular e chamei Enzo de novo. Ele atendeu no primeiro toque.
"Me diz que já tem alguma coisa."
"Tenho pistas. Câmeras da escola da Eliza mostram um SUV preto parado na rua, vidros escuros, placa clonada. Já coloquei dois homens para rastrear. E as imagens do estacionamento… um funcionário de limpeza passou duas vezes pelo seu carro antes de você chegar. A equipe está atrás dele agora."
"Quero ele na minha frente até o fim da noite." Minha voz era baixa, carregada de veneno.
"Entendido."
Desliguei e joguei o celular no banco ao lado. Respirei fundo, mas a sensação de que estava perdendo o controle só aumentava.
Olhei para a janela do quarto dela. A cortina estava fechada, mas eu sabia que ela estava ali, tentando manter distância.
O problema é que distância não ia mantê-la viva.
Meus dedos tamborilavam no volante, como se a raiva precisasse de um ritmo para não explodir de vez.
Peguei o celular outra vez, mas dessa vez não liguei para Enzo. Rolei a lista de contatos até encontrar o nome certo e disquei.
"Tereza."
"Senhor Donovan?" A voz dela soou surpresa, provavelmente porque, depois de me ver sair do escritório às pressas com Lúcia após o ocorrido, não esperava que eu tivesse qualquer assunto pendente para resolver.
"Tereza, preciso que acione a escolta particular. Quero dois homens disfarçados na frente da casa da Lúcia até segunda ordem. Um carro parado na esquina, outro circulando pelo quarteirão. Discrição total. E me ligue na mesma hora se houver qualquer movimento estranho."
Houve um breve silêncio, e então ela respondeu, firme:
"Entendido, senhor."
Desliguei, ainda com o punho cerrado no volante, lutando contra o impulso de voltar lá e resolver tudo com as próprias mãos.
Girei o volante e voltei para a avenida, acelerando. Parte de mim queria dar a volta no quarteirão, estacionar de novo e bater na porta dela até que abrisse. Mas isso seria cruzar a linha tênue que ela já estava tentando manter.
Foram vinte minutos até chegar em casa. Entrei na garagem, desliguei o motor e fiquei alguns segundos dentro do carro, tentando colocar os pensamentos em ordem. Não funcionou.
Assim que empurrei a porta de entrada, ouvi passos apressados no corredor.
"Papai!" Eliza surgiu com a energia de sempre, o cabelo loiro preso num rabo de cavalo meio torto e um sorriso que iluminava tudo.

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