Lúcia Mendes
O médico não parava de falar, mas as palavras batiam no meu ouvido como se estivessem sendo ditas debaixo d’água. “Tratamento experimental… alta taxa de sucesso… custo elevado…” até que a frase final atravessou meu peito como uma faca:
"Três milhões de dólares."
Aquele número ficou girando na minha cabeça. Três. Milhões.
Meu corpo ficou gelado, as mãos suando, a garganta travada.
"E… e se a gente não conseguir?" minha voz saiu num fio.
Ele suspirou, olhando para o chão por um instante.
"Sem o tratamento, a progressão da doença será muito mais rápida. Estamos falando de meses, talvez semanas, antes de complicações sérias."
Semanas.
Meu estômago se revirou. Eu precisava sair dali.
Assenti com um movimento mínimo de cabeça, agradeci com um “eu… entendi” e recuei até a porta. No corredor, encostei as costas na parede e tentei respirar, mas o ar parecia pesado demais.
Peguei o celular. Meus dedos tremiam enquanto eu abria a lista de contatos. Quem… quem poderia me emprestar tanto dinheiro?
A primeira ligação foi para Ana, minha amiga de faculdade. Atendeu na terceira chamada.
"Lu… você tá chorando?"
"Ana, eu preciso de um empréstimo. Qualquer coisa que você consiga. É urgente."
Ela hesitou. "Amiga, eu queria muito ajudar, mas… tô com as contas do apartamento atrasadas. Não tenho como, me desculpa."
"Não se preocupa, vou dar um jeito, obrigada."
Desliguei antes que minha voz falhasse.
Segui para o próximo nome da lista, depois o próximo. A cada resposta negativa, o buraco no meu estômago aumentava. As justificativas se repetiam: “não posso agora”, “acabamos de pagar os impostos”, “estou com dívidas também” e eu comecei a sentir vergonha de continuar pedindo.
Verifiquei o saldo da minha conta e da conta da minha mãe. Somando tudo, dava para comprar um carro usado, no máximo. Liguei para a gerente do banco.
"Senhorita Mendes, o seu limite de crédito já está comprometido com a hipoteca e o histórico recente de solicitações de empréstimo pode dificultar qualquer aprovação nova."
"Eu pago em dobro, em triplo, faço qualquer acordo. Por favor, é questão de vida ou morte."
Ela suspirou. "Se me permite… talvez você devesse procurar alternativas mais… informais, aqui no banco, eu estou de mãos atadas."
Alternativas informais. Eu sabia o que isso significava.
Fechei os olhos e pensei nele. Romeno. O homem que, anos atrás, me emprestou dinheiro quando precisei cobrir despesas urgentes da minha mãe. O mesmo que me fez perder noites de sono com ligações e ameaças quando atrasei uma parcela. O mesmo que me jurou que, se eu voltasse a procurá-lo, teria que pagar um preço muito mais alto.

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