Nate Donovan
Eu tentei ligar pra ela três vezes. Quatro. Cinco.
Nada.
A tela acesa do celular refletia minha própria cara cansada, e eu tive que morder a vontade de pegar o carro e voltar pro hospital na mesma hora.
"Eu vou até lá", falei, já me levantando.
"Não vai, não", David cortou, sem levantar os olhos dos relatórios. "Ainda tem peça solta. E a gente só começou pela Lúcia."
"Você quer o quê? Que eu fique sentado vendo vocês chutarem hipótese em cima de hipótese?"
Enzo empurrou outra pasta pra mim. "Eu quero que você seja racional pelo menos até amanhecer."
A madrugada foi um arrasto. Páginas, extratos, listas de contato, cruzamento de dados. A cabeça latejava e a cafeína já não fazia efeito. Eu lia e relia, mas o pensamento voltava pro hospital, pro jeito que ela tremia tentando não tremer.
Quando o céu começou a clarear atrás da janela do escritório do David, eu estava um lixo: camisa amarrotada, olhos ardendo, mandíbula dolorida de tanto travar.
"Vai pra casa, toma um banho e reaparece na empresa", David disse, empilhando papéis. "Eu e o Enzo cuidamos do resto."
Eu só assenti. A verdade é que nenhum número naquela mesa tinha peso suficiente pra competir com a urgência que batia no meu peito.
Dirigi quase no automático até em casa. Quando entrei, senti o cheiro de torrada e ouvi passos pequenos correndo no corredor.
"Papai!" Eliza veio como um foguete, cabelo preso num rabo torto, uma meia de uma cor, e outra meia de outra. "Você vai trabalhar hoje?"
"Vou, pequena. Mas antes vou tomar um banho."
"Eu quero ir com você!"
Sorri, cansado. "Hoje não dá."
"Por quê?" Ela fez o biquinho. "Eu queria ver a tia Lúcia."
Ajoelhei, ficando na altura dos olhos dela. "Ela não está lá agora."
"Então a gente visita ela na casa dela", ela insistiu, muito séria. "E leva flores. Pessoas gostam de flores."
Fiquei olhando pra minha filha um segundo. "De onde veio tanta sabedoria, hein?"

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