Nate Donovan
Ela não levantou de imediato. Respirou fundo e só então ergueu o olhar. Os olhos estavam vermelhos, a máscara de força rachada. Quando me viu, algo na expressão dela partiu e ficou suspenso, alívio e vergonha e cansaço, tudo de uma vez.
"Eu não queria que você me visse assim", ela disse, a voz arranhada. "Mas ainda assim, queria você aqui. Estranho né?"
Dei dois passos e me abaixei diante dela, colocando as flores ao lado. Ninguém parecia vê-la ali, tão abatida e solitária. Já eu não conseguia ver nada além daquilo.
"Eu trouxe flores", falei, meio idiota, sem saber exatamente como a ajudar naquele momento.
Ela olhou pro arranjo e engoliu em seco. "São lindas."
"São da Eliza", acrescentei. "Ela escolheu. Disse que é um abraço que não amassa."
Os cantos da boca dela se moveram, um quase-sorriso quebrado. Os olhos encheram de água de novo.
"Ei", sussurrei. "Fala comigo, chaveirinho. Eu to aqui pra você. Pro que você precisar."
Ela soltou o ar, um soluço contido, e deixou a cabeça encostar na parede. Eu queria puxá-la pro meu peito e prometer mundos, como sempre. Mas aquele choro me pediu silêncio.
"Como ela está?" perguntei, depois de alguns segundos.
"Acordou de madrugada. Confusa." Ela passou o dorso da mão no nariz. "Agora está mais calma. O médico pediu novos exames. Falou em protocolo... em coisas que eu... Ele falou semanas, Nate... que ela pode ter algumas semanas. " engoli em seco.
A voz falhou. Eu estendi a mão e ela colocou a dela na minha, fria, pequena.
"Eu tô aqui."
"Eu sei." Ela fechou os olhos. "Mas eu preciso ficar forte. Eu preciso... eu preciso dar um jeito. Não consigo aceitar isso assim. Ela é minha mãe, não consigo imaginar ficar sem ela."
"Você vai dar", falei, automático, e me odiei por soar tão fácil quando nada era.
Ela abriu os olhos e me encarou, um brilho decidido no meio do caos. Eu reconheci aquela expressão: a de quem já decidiu pular mesmo sem saber se tem água embaixo.
"Eu vou resolver", ela disse, quase pra si mesma. "Nem que eu..."
Parou a frase no ar. A mandíbula dela endureceu. A culpa mordeu o meu estômago por lembrar do que David e Enzo jogaram na mesa. Eu expulsei o pensamento. Não ali. Não com ela no chão, aos pedaços.
"Quer que eu fale com o médico?" perguntei, baixinho. "Posso pedir pra ele me explicar tudo. Posso trazer alguém da minha confiança orientar. Posso..."
"Você já fez muito." Ela apertou minha mão. "Obrigada pelas flores. Pela Eliza. Por... estar aqui."
Eu assenti. O impulso de dizer "vem comigo, eu resolvo" era quase físico. Mas o que eu tinha pra oferecer agora eram flores e presença e às vezes isso precisa bastar.
Uma enfermeira passou, nos olhou, e seguiu. O corredor respirou junto.
"Quer um café?" arrisquei.

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