Lúcia Mendes
Eu não lembro como fechei a porta, nem como desci as escadas. Só lembro de apertar a chave com tanta força que meus dedos ficaram brancos. O telefone tinha caído. A voz da Olívia ainda ecoava: “Vem rápido.”
A rua parecia mais comprida do que de costume. Entrei no uber sem pensar. Só um mantra martelando junto com o coração: “Por favor, não. Por favor, não.”
Quando cheguei ao hospital, não parei na recepção. Fui direto, como se meus pés soubessem o caminho sozinhos. Corredor, elevador, botão apertado, porta abrindo. A cada andar meu estômago afundava um pouco mais. Virei à direita, depois à esquerda, e empurrei a porta do quarto.
Vazio.
A cama esticada, os lençóis ainda mornos. A poltrona onde eu tinha dormido torta a noite inteira estava empurrada para o lado. O bip do monitor desligado parecia zombar de mim.
“Não, não, não…” Minha voz saiu sem ar. Olhei para um lado, para o outro, o corredor girando, uma agulha de gelo cravada no meio do meu peito.
Saí tropeçando, parei na primeira pessoa de branco que vi.
“Por favor… minha mãe… leito 307. Ela não está lá. Onde ela está? O que aconteceu?”
A enfermeira ergueu as mãos, calma treinada no rosto.
“Senhorita, respira. Sua mãe teve uma convulsão, mas foi atendida de imediato. O médico solicitou alguns exames. A acompanhante está com ela, mas precisamos que a senhora mantenha a calma.”
“Convulsão?” Minha garganta arranhou por dentro. “Ela… onde… eu quero ficar com ela. Onde é?”
“Me acompanhe.” Ela se afastou e eu fui atrás, as pernas moles como se fossem de outra pessoa. Passamos por duas portas duplas, viramos um corredor mais frio, e paramos diante de uma placa que eu não decorei. Só gravei a cor: branco demais.
Olívia estava do lado de fora, o rosto sério, os olhos atentos. Quando me viu, correu.
“Lúcia! Me perdoa. O celular acabou a bateria. Eu tentei...”
“Não importa.” Agarrei os braços dela. “Como foi? O que aconteceu?”
“Foi rápido.” Ela falava baixo, como se a própria voz pudesse atrapalhar alguma coisa. “Eu estava conversando com ela quando começou. Chamei a enfermagem na hora. Controlaram, ela estabilizou. O médico preferiu pedir mais exames por segurança. Eu fiquei o tempo todo ao lado dela.”
“Ela sentiu dor? Ela falou alguma coisa?” Minha cabeça queria mil respostas ao mesmo tempo.
“Não. E agora está mais calma.” Olívia apertou minhas mãos. “Ela vai sair já, já. Respira, tá?”
Assenti, mas o ar não vinha direito. Olívia me puxou até a fileira de cadeiras e me sentou.
“Eu vou buscar água. Você está tremendo.” Ela tocou meu ombro com cuidado. “Não sai daqui.”
Fiquei. Porque eu não sabia para onde ir. Apoiei os cotovelos nos joelhos e deixei a cabeça cair nas mãos. Eu era um nó. Um nó de medo, culpa, cansaço.
E então o celular começou a vibrar.
Uma notificação. Depois outra. E outra. A tela piscava sem parar na minha mão.
“Pagamento confirmado.”
“Liquidação de débito – Banco X.”
“Quitação de parcela – Hipoteca Residencial.”
“Cartão final 2147 – saldo zerado.”
“Operação concluída – valor total…”
Meus olhos correram linha por linha. Era como se alguém tivesse aberto uma janela num quarto sem ar. Não fazia sentido. Não fazia sentido.
“Não…” A palavra saiu sozinha, num sussurro rouco. “Isso… não…”
A garganta apertou. A cabeça começou a girar. Era um milagre. Mas milagres, na minha vida, sempre vinham com a conta.
“Trouxe água.” Olívia reapareceu, me entregando o copo. “Você ficou pálida.”
Eu peguei, bebi um gole sem sentir o gosto. A boca seca, a mente gritando perguntas que eu não sabia se queria responder. O celular vibrou outra vez.

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