Senti meu rosto esquentar de raiva, vergonha e humilhação enquanto olhava para todos aqueles rostos que riam de mim, debochando da minha situação.
Olhei para April, tentando segurar as lágrimas.
— Por quê? Por que está fazendo isso? Como pode se aliar a esses dois? Você é minha melhor amiga!
— Ah, por favor — April cruzou os braços e se aproximou de mim. — Eu só suportei você todo esse tempo porque meus pais me obrigaram. Eu tinha que ser a sua cachorrinha para garantir os investimentos dos seus pais nas empresas dos meus.
April chegou mais perto.
— Acha mesmo que eu gostava de estar sempre disponível para você? Acompanhar você nas compras, carregar suas sacolas, suportar esse seu jeito de superioridade fingindo ser a boazinha? Você não sabe como eu odiava viver sempre na sua sombra! Eu sempre fui “a amiga da Evelyn Fuentes”, mas agora eu estou livre! Você não é mais a poderosa e intocável herdeira. Está na hora de você se sentir como todos nós nos sentimos esse tempo todo, tendo que seguir e suportar você!
— Isso mesmo! — acrescentou um rapaz.
— Todos nós tivemos que pisar em ovos e servir você por obrigação dos nossos pais, com medo dos Fuentes. Agora isso chegou ao fim! — disse outra garota.
Eu olhava para todos aqueles que considerava meus “amigos” e via seus sorrisos como os de hienas prontos para desmembrar sua presa.
Eu não me lembrava de ter sido ruim com nenhum deles. Sempre ajudei e estive por perto, mas, pelo visto, essa bondade foi interpretada como soberba e superioridade.
— Pois é, Evelyn — Adelina começou, aproximando-se ainda mais de mim. — Parece que você não só perdeu seus pais, como também não tem mais dinheiro para comprar amigos. Então aceite esse nosso gesto de bondade. Nos sirva esta noite, seja nossa criada VIP, e nós vamos juntar uma vaquinha para você, em homenagem aos velhos tempos. O que acha?
Senti a raiva subir pelo meu corpo enquanto olhava para ela e não pude me conter, levantei o braço para desferir um tapa nela, mas meu pulso foi segurado antes mesmo de atingir seu rosto.
Vítor apareceu como um relâmpago, segurando meu pulso com força suficiente para quebrá-lo, e me encarou com um olhar cheio de raiva e desprezo.
— Você está louca? Quer perder a mão? — ele rugiu para mim
— Vocês é que estão loucos se pensam que vão me humilhar ainda mais!
Tentei puxar meu braço para me soltar, mas ele apertou ainda mais.
— Você realmente ainda não percebeu, não é? Você não é mais aquela herdeira que tinha tudo aos seus pés. Agora é você quem deve ficar aos pés dos outros e implorar por eles. Então comece a se colocar no seu lugar. Pegue o uniforme e faça como a Adelina disse.
Eu o encarava, incapaz de impedir meu coração de doer. Até ontem, ele me mandava mensagens de boa noite e dizia que me amava. Até ontem, eu imaginava um futuro ao lado dele. Agora, era como olhar para um completo estranho que só queria a minha destruição.
Usei toda a minha força, soltei meu pulso e o encarei.
— Se você quer que ela seja servida, sirva você. Afinal, você já está acostumado com esse tipo de trabalho baixo, beijando meus pés todos esses anos para conseguir o que queria, não é mesmo?
O rosto de Vítor ficou vermelho de raiva, mas não me importei. Virei-me e dei um passo em direção à saída, não ficaria ali nem mais um segundo dando o gosto de vitória para eles.
Porém, parei subitamente ao ouvir a voz de Vítor novamente, dizendo algo que me fez congelar.
— Eu já mandei um pessoal limpar a mansão dos Fuentes e jogar todo o lixo fora. Amanhã eu vou ocupá-la. E basta uma ligação minha para os corpos dos seus pais serem jogados em um lugar onde você nunca mais vai encontrá-los!
Virei-me bruscamente, tomada pela raiva e pelo horror.
— Não se atreva a tocar neles! — gritei, aproximando-me dele.
— Você pode me odiar, mas meus pais não têm nada haver com isso! Eles cuidaram de você como um filho! Deram tudo a você! Como você pode ser tão cruel e tratá-los assim?!
Vítor deu um passo à frente, aproximando-se ainda mais.
— Eles só queriam se mostrar superiores ajudando um órfão, o “bonequinho” da filha deles. E eu já paguei tudo sendo empregado deles naquela empresa, e suportando você esses anos todos. Então, o desprezo que sinto por você não é menor do que o que sinto por eles.


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