Aelyn
Eu vi as chamadas do Felipe. Três. Depois quatro. Depois cinco.
O celular vibrava em cima da mesinha de centro, mas eu não atendia. Não conseguia. Ainda não. Meu peito doía de um jeito que não era só físico, era medo, era amor, era raiva de mim mesma por estar fazendo exatamente o que eu mais criticava nele: me afastar.
Tales tinha feito brigadeiro de panela e uma tigela enorme de pipoca doce. Estávamos os dois largados no sofá enorme da sala dele e do Luciano, assistindo a um filme bobo de comédia romântica que nenhum de nós estava realmente prestando atenção. Eu tinha a cabeça apoiada no ombro dele, o pote de brigadeiro no colo, e chorava baixinho de vez em quando.
"Quer mais chocolate?", Tales perguntou, oferecendo a colher.
Eu neguei com a cabeça. Ele me apertou um pouco mais contra si.
A porta da frente abriu. Luciano entrou, ainda de jaleco, com cara de quem tinha tido um dia longo. Assim que nos viu no sofá, eu com os olhos vermelhos, Tales me abraçando como se eu fosse quebrar, ele parou.
"Que foi? Vocês terminaram? Eu te vi hoje de manhã, você estava bem."
Ele veio rápido, tirou os sapatos e se jogou no sofá do outro lado, me puxando para um abraço triplo desajeitado. Eu neguei com a cabeça, a voz embargada.
"Eu tô grávida, Lu."
Luciano arregalou os olhos, completamente chocado.
"O quê?"
"A tontura… era isso. Tem um nenenzinho na minha barriga. E eu estou tão feliz e, ao mesmo tempo, surtando. A gente se desentendeu."
Ele piscou várias vezes, processando. Tales soltou uma risada baixa.
"O menino não brinca em serviço, hein? Na primeira tentativa já acertou o alvo."
Eu ri entre as lágrimas. Luciano ainda estava em choque, passando a mão no rosto.
"Caralho, Aelyn… e o Felipe? Como ele reagiu?"
"Ele está surtando", respondi, limpando o rosto. "Ele quer o bebê, mas tá morrendo de medo. Eu entendo, Lu. Eu também tenho medo. Mas eu não sei o que fazer. Tenho medo dele me mandar escolher entre ele e o bebê. E eu não consigo. Eu não posso fazer isso."
Luciano ficou em silêncio por um momento, só me olhando com aquela cara de médico e amigo ao mesmo tempo.
"Qualquer um surtaria, meu amor. Vocês dois acabaram de começar a namorar de verdade. Estão construindo um futuro. Uma gravidez de alto risco agora é… pesado. Tenta entender o lado dele também."
"Eu entendo", sussurrei. "Mas eu queria que ele tivesse curtido a notícia comigo. Pelo menos por cinco minutos. Eu não posso escolher entre eles."
Tales me apertou mais.
"Ele não seria maldoso a esse ponto. Para de inventar loucuras nessa sua cabecinha."
Eu chorei de novo. O celular tocou mais uma vez. Serena. Atendi, a voz fraca.
"Serena…"
Mas não era ela. Era Felipe. A voz dele saiu desesperada do outro lado da linha.

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