Miguel Ylmaz
Acordei com a luz da manhã invadindo o quarto. Minha cabeça ainda rodava, mas não por conta de bebida, e sim pelo que havia acontecido na noite anterior. Por um momento, senti um sorriso surgir nos lábios. Eu e Anny finalmente nos entregamos ao desejo que vinha nos consumindo.
Mas a alegria durou pouco. Rolei na cama, ainda nu, esperando vê-la ao meu lado, talvez envolta nos lençóis, com aquele sorriso travesso que me enlouquecia.
Franzi a testa. "Talvez esteja no banheiro", pensei, tentando afastar a sensação incômoda que começava a surgir. Levantei-me, vesti a calça rapidamente e comecei a procurar pelo apartamento.
— Anny? — chamei, olhando pela cozinha. Nada.
Fui até a sala. Silêncio absoluto. O apartamento parecia abandonado. Voltei para o quarto e foi então que vi o papel dobrado sobre o travesseiro. Peguei-o, ainda com as mãos trêmulas, e li.
"Quando sair do meu apartamento, não esquece de trancar. Obrigada pela noite, mas não se esqueça: ontem eu só te quis por puro prazer. Eu não te perdoei e não te quero de volta."
Senti meu rosto esquentar. Meu ego, que momentos atrás estava nas alturas, despencou como um avião sem combustível.
— Só por prazer? — repeti para mim mesmo, incrédulo.
Rasguei o papel em pedaços e joguei no chão. Peguei o celular e disquei o número dela. Não demorou muito para que ela atendesse.
— Miguel, estou ocupada.
— Ocupada? É isso que você tem a dizer depois de deixar um bilhete desses? Você acha que eu sou o quê? Um homem só para te dar prazer?
Do outro lado da linha, ouvi sua risada baixa, como se ela estivesse se divertindo com a minha indignação.
— Você também aproveitou e agora está se sentindo usado? — ela respondeu, a voz carregada de sarcasmo. — Se desejar aplicar alguma multa ou prestar queixa por se sentir usado, já aviso que é em vão.
— Anny, você...
— Passei anos casada com um homem que literalmente me usou diante da família dele para viver de aparência e estou bem com isso. Então, você vai sobreviver, Miguel.
Antes que eu pudesse responder, ouvi o som característico de uma chamada sendo encerrada.
— Ela desligou na minha cara! — exclamei, incrédulo.
Fiquei alguns segundos parado, olhando para o celular, como se ele pudesse me oferecer alguma resposta. Depois, soltei um suspiro pesado, entre irritado e perplexo.
"Eu vou sobreviver", pensei, repetindo as palavras dela. "Mas você vai ouvir de mim, Anny."
Decidi que não ia deixar aquilo passar. Tomei um banho rápido, ainda remoendo o que ela tinha dito, e vesti a minha roupa.

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