Miguel Ylmaz
Eu nunca fui de me apegar. Não quando o apego significava fraqueza. Mas naquela noite, enquanto Anny estava sentada no meu sofá, segurando aquela rosa, entre tantas que eu mandei, algo mudou. Não era só a lembrança do incêndio ou a ameaça de Kemal que me perturbava. Era ela. Sua presença me inquietava de uma forma que eu não queria admitir.
— Você deveria dormir aqui esta noite — eu disse, rompendo o silêncio que pairava entre nós.
Ela levantou o olhar, surpresa e talvez um pouco desconfiada.
— Miguel, não é necessário. Eu estou bem.
— Bem? — Rebati, inclinando-me para frente. — Você veio até aqui no meio da noite porque estava preocupada comigo. E agora quer voltar para casa sozinha, sabendo que tem um incendiário à solta? Não seja teimosa, Anny.
Ela respirou fundo, claramente tentando encontrar uma desculpa para sair, mas eu não ia deixá-la escapar.
— Então, que tal isso? — continuei antes que ela pudesse argumentar. — Eu mesmo te levo para o seu apartamento. E durmo na sua sala, junto com as rosas.
Ela arqueou a sobrancelha, desafiadora como sempre.
— Você não conseguiria. Esqueceu que tem alergia?
Por um momento, o sarcasmo em sua voz quase me fez rir. Quase. Mas a verdade é que ela tinha razão. Eu havia me esquecido. Como sempre, ela conhecia minhas fraquezas melhor do que eu mesmo.
— Como eu posso ter sido tão frio com você nos últimos anos? — perguntei, minha voz mais baixa, mais vulnerável do que eu pretendia.
Ela hesitou, como se não soubesse o que responder. Mas seus olhos, sempre tão expressivos, me diziam tudo. Ela não acreditava que eu pudesse mudar.
— Talvez seja essa sua personalidade — ela respondeu finalmente, com um tom meio amargo. — Sempre insensível. Também pelo fato de que nunca me amou.
Essas palavras eram como lâminas. Profundas e certeiras.
— Na verdade... — comecei, mas minha voz falhou. Eu odiava parecer fraco. Odiava admitir qualquer tipo de derrota, mas com Anny, sempre foi diferente. — Sempre quis negar que você poderia ter o meu coração.
Ela riu, uma risada curta e sem humor, como se não acreditasse em mim.
— E o que aconteceu para mudar de ideia?
— Prefiro ser vulnerável ao seu lado do que solitário sem você, bombom.
Ela arregalou os olhos, claramente surpresa.
— Agora sou bombom para você? — provocou, mas seu tom tinha uma suavidade que não estava ali antes.
Eu me aproximei, sentando-me ao seu lado no sofá. Meus dedos roçaram levemente o rosto dela, traçando a curva de sua bochecha até o queixo. Ela não recuou, mas também não relaxou completamente.
— Sempre foi, Anny. Eu só era cego demais para perceber.
Por um momento, tudo ficou em silêncio. Apenas a nossa respiração preenchia o espaço. Eu podia ver o conflito em seus olhos. Ela queria acreditar, mas tinha medo.
— Miguel... — começou, mas eu a interrompi.
— Não, escute. Eu sei que cometi erros. Sei que fui um idiota. Mas estou tentando. Pela primeira vez, estou tentando de verdade. E não só por Leyla, que quer que eu seja feliz, ou pela minha mãe, que nunca pude conhecê-la, mas por você. Porque você é a única pessoa que me faz querer ser melhor.
Essas palavras foram suficientes para aliviar um peso que eu nem sabia que estava carregando.
— Bom. — Meu tom era casual, mas por dentro, eu estava explodindo de alívio. — Vou preparar um quarto para você.
— Não precisa — respondeu, recostando-se no sofá. — Estou bem aqui.
Eu a observei por um momento antes de me sentar ao lado dela novamente, pegando a rosa que ainda estava em suas mãos.
— Sabe, Anny, essas rosas não foram apenas um presente. Foram um pedido de desculpas. Por tudo.
Ela olhou para mim, surpresa.
— E por que demorou tanto para pedir desculpas?
— Porque eu sou um idiota teimoso.
Ela riu, um som leve e sincero que aqueceu meu peito.
— Bem, pelo menos você admite.
Por um momento, tudo parecia estar no lugar. Mas eu sabia que o caos ainda estava à espreita, esperando por uma oportunidade de nos destruir.
E, mesmo assim, naquele momento, com Anny ao meu lado, senti que talvez, apenas talvez, valesse a pena lutar por algo mais. Por ela. Por nós.
continua...

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