Melissa
Me tranquei no quarto, tentando evitar qualquer desentendimento ou situação incômoda com Henry. Nossa convivência está longe de ser boa, e detesto admitir, mas eu mesma me coloco em situações que alimentam esperanças onde não devia. Esse meu jeito… Sou boba demais, ou melhor, bobona. Preciso aprender a usar esse coração que sempre busca ver o melhor de uma forma que não me prejudique tanto. Chega. A partir de agora, vou me cuidar, e ninguém mais me fará de idiota.
Fui para o banho tentando lavar a mente junto com o corpo. Henry, com sua presença constante aqui, me deixa completamente travada. Sinto um impulso de estar longe, de evitá-lo em tudo, mas a vida real não facilita as coisas. Saí do banho e, enquanto me trocava e arrumava meu cabelo, me peguei pensando em mudar o visual. Fiz minha maquiagem com capricho — sempre fui apaixonada por maquiagem, uma das poucas coisas que ainda consigo aproveitar sem reservas. Terminei, e ao olhar no espelho, vi alguém confiante e poderosa, me sentindo bem comigo mesma, o que não acontecia há tempos. Sou minha maior fã, e quem mais pode ser?
Com o visual pronto, fui dar uma olhada na minha pequena. Mia estava toda arrumada para ver o vovô, e quando me viu, abriu aquele sorriso banguela que derrete qualquer um.
— Ai, meu Deus, olha só essa fofura de mamãe! — disse enquanto ela, animada, começou a pular no colo da Dora. Peguei minha pequena nos braços, sentindo o cheirinho delicioso dela. — Tá linda demais, meu amorzinho. Mas vê se não dá muito trabalho pra Dora, tá bom? — brinquei.
— O senhor Stuart disse que vai ser rápida a ida até a casa do senhor João, logo eles estão de volta e, com certeza, já dormindo — Dora me assegurou, e fico aliviada. Confio tanto nela; desde o nascimento da Mia, Dora tem sido essencial em nossas vidas.
— Obrigada por tudo, Dora.
— Ah, não precisa agradecer, amo cuidar dessa pequena. Ela é minha alegria diária! E você está belíssima — disse Dora com carinho.
— Obrigada, Dora. Mas, por favor, sem “senhora”! — sorri, mas logo reparei Henry na porta, me observando de um jeito que sempre causa desconforto.
— Está linda, maravilhosa como sempre. Mas... tem certeza de que é só um jantar? — A pergunta veio com uma expressão cínica. Será que ele realmente acha que tem esse direito?
— Não parece? — respondi, tentando manter a calma. Ele me olhou dos pés à cabeça, com aquele ar crítico.
— Nenhum pouco, parece mais que está arrumada pra um encontro. — Para minha infelicidade, Dora saiu do quarto, deixando-me sozinha com ele. — Certeza que precisa de tudo isso? — soltei um sorriso irônico.
— Sim, tenho certeza. Agora vai. Já está quase na hora da Mia dormir, e sabe que ela fica irritada com sono. — Entreguei Mia para ele, mas Henry segurou meu braço para que eu não saísse. Evitei olhar nos olhos dele — esses olhos sempre me desarmaram, e não estou disposta a cair nessa outra vez.
— Por que não ficamos aqui juntos e tentamos conversar? — perguntou, olhando-me de um jeito que só me confunde ainda mais. Respirei fundo, tentando afastar o que sentia.
— Não acha que é tarde demais para isso? — rebati, a voz saindo mais dura do que eu gostaria. — Vai viver sua vida, Henry, do jeito que fazia quando ainda estávamos casados. Vai por mim, é o melhor. — Ele soltou meu braço.
— Melissa, vamos conversar — insistiu, aumentando o tom de voz. Olhei para ele, fulminando-o com o olhar, até que soltou meu braço outra vez.
— Não. Não quero, Henry. Vou curtir minha noite. — A irritação transparecia no meu tom de voz.
— Tenha consideração, Melissa — murmurou com a Mia nos braços. Engoli em seco ao ver os dois juntos; já foram meu mundo, aqueles por quem eu faria qualquer coisa. Mas o homem à minha frente arruinou tudo.

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