Renata
Os meus planos saíram completamente do eixo. Nada aconteceu como eu imaginei, mas talvez isso tenha sido um mal necessário. O tempo que tive me ajudou a refletir e planejar melhor o que realmente quero.
Quando minha mãe propôs uma viagem, achei que seria algo normal, como tantas outras que fizemos em família. Na minha cabeça, seria uma oportunidade para relaxar e organizar meus pensamentos. Até sugeri levar Marcelo comigo, apesar dele estar me evitando desde aquela discussão na cobertura do Eduardo. Acreditava que, se estivéssemos juntos, as coisas poderiam melhorar. Mas o que minha família fez foi uma emboscada. Nunca pensei que fossem capazes de algo tão sujo.
A raiva fervia em mim, ainda mais quando percebi que o Henry sequer sentiu minha falta. Logo ele, por quem enfrentei tudo e sempre dei o máximo de mim. Ele não fez nada por mim. Nada para me ajudar. Nada para me tirar daquele inferno onde fui jogada.
Eles me mandaram para um lugar imundo, fedido, cheio de animais e suas fezes. Disseram que era para o meu bem, como se estivessem me salvando de algo. Minha mãe repetia, dia após dia, que a natureza me ajudaria a me curar, a me desligar do passado. Diziam que, depois de recuperada, a vida seria melhor. Recuperar de quê? Eu não sou nenhuma viciada, nem alcoólatra. Eles me trataram como uma doente, como se precisasse de reabilitação.
Eu não precisava daquilo. Eu não precisava aprender a tirar leite de vaca ou limpar um chiqueiro. Meu lugar é em meio ao luxo, entre pessoas bonitas e bem vestidas, e não nesse ambiente grotesco, cercada por caipiras que mal conheço e velhos nojentos que me secavam com os olhos. A distância do Henry só fez com que eu percebesse que ele não virá por conta própria. Eu preciso agir.
Passei meses sendo humilhada. Fazendo tarefas absurdas como tirar leite de vaca — e fazia isso com tanta raiva que era um milagre não deixar a vaca sem uma teta. Tudo era imposto, nada era escolha minha. Eles me arrancaram tudo. Meu celular, meu dinheiro, minha liberdade. Já imaginou perder tudo de repente? Ser mandada para o meio do nada, isolada, sem contato com ninguém? Foi o que meus pais fizeram comigo, com o incentivo daquela velha bruxa da minha madrinha, que me chamou de louca. Mas eu vou mostrar a eles o que é ser louca. Eles vão pagar.

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