Acordei irritada com as ligações da minha mãe, que, como sempre, tenta controlar os filhos. Ela não se cansa de me procurar, e não entendo por que ainda se surpreende ao saber que estou na casa da Melissa. Ela sempre soube do meu amor fraternal por ela; Melissa é como uma irmã para mim, e tenho o maior carinho por essa garota desde sempre. Minha mãe acha que tudo o que faço com Melissa é para atingi-la, já que não gosta dela. Deve pensar que eu e Melissa falamos o dia todo sobre ela, quando raramente tocamos em seu nome. Diria que minha mãe tem uma mania de perseguição.
Desliguei a ligação depois que ela perguntou se Henry havia passado a noite aqui. Com certeza, já está sondando a vida do meu irmão. Odeio isso. Ela é minha mãe, mas não permitirei que espie a vida de Henry e Melissa por meio de mim. Não mesmo; isso eu não admito.
Olhei as mensagens no meu celular e entrei no grupo que criei para os convidados da festa em Angra. Se tudo der certo, teremos vários gatinhos na festa. Queria contratar um grupo de gogo boys, mas acho que os meninos não vão gostar nada disso. E stripper daria um clima total de puteiro. Então, deixei para a próxima festinha que seja só de mulheres. Gosto disso: curtir a vida sem me apegar a relacionamentos sérios. Veja só o sofrimento da Melissa. Para que vou querer me envolver? Não que a vida dela seja ruim, longe disso, mas constatei o relacionamento deles decair com o tempo. Eles eram muito apaixonados, mas cada um com seu jeito de ser. No fim, acho que isso estraga muito as pessoas. Se querem dar certo, têm que ter diálogo, conversar, deixar explícito tudo que magoa na outra pessoa. Várias vezes falei sobre isso com Melissa; várias vezes também tentei falar com Henry, mas ambos tinham seus orgulhos. E, por serem orgulhosos, deixaram o relacionamento acabar.
Agora lidamos com a realidade. Daqui a alguns dias, vamos para nossa viagem. Espero, de verdade, conseguir distrair minha amiga. Quero que ela saia de casa, deixe o trabalho um pouco de lado e viva sua vida ao lado da princesa que Deus lhe deu.
Saí do quarto e me espreguicei preguiçosamente, desci as escadas e encontrei Melissa no sofá com Mia, que já estava no auge da energia matinal.
— Mas já está comendo? Essa bebê vai virar uma bolinha comilona. — Falei com uma voz fininha e irritante, do jeito que a minha princesinha adora.
Melissa riu e respondeu enquanto dava colheradas na salada de frutas para Mia:
— Bom dia, lindona. Filha, fala para a titia que está na hora do seu café da manhã.
Me aproximei, sentando ao lado delas. Mia mexia os bracinhos animada e distribuía sorrisos tão contagiantes que já entendi por que Melissa nunca perde o humor. É impossível acordar de mau humor com um bebê tão adorável por perto.
— Você cuida dela tão bem, Mel. Olha só essa salada de frutas. Que delícia! — Comentei, observando a interação entre mãe e filha. — Acho que nunca vi uma mãe tão exemplar como você. Tudo na hora certa, além de ser tão carinhosa.
Melissa sorriu, mas o tom de sua voz ficou mais sério.
— Faço isso por ela, Bárbara. Graças a Deus posso estar com ela o tempo todo. Minha mãe nunca teve essa oportunidade comigo e com meu irmão. Ela precisava trabalhar ou não teríamos o que comer à noite.
Melissa ficou pensativa, mas logo voltou a falar, com um olhar cheio de amor para Mia.
— Quero criar esses hábitos para ela desde cedo. Se mudo os horários um dia sequer, ela come mal. Não gosto nem de pensar nela perdendo peso, já é tão pequenininha.
Mia parecia entender cada palavra da mãe, sorrindo apenas de ouvir sua voz. Era tão óbvio o quanto era apaixonada por Melissa, exatamente como vi ontem com Henry.
— Isso é porque ela puxou você. Pequena, mas gordinha. — Brinquei.
Melissa riu. — Verdade. Ela está até acima do peso, mas a estatura... Não. Às vezes me preocupo, mas minha mãe disse que eu também era assim.
— Relaxa, amiga. Não é porque o pai dela tem quase dois metros de altura que ela precisa ser um gigante também. Seria até estranho! — Comentei, arrancando mais risadas de Melissa. — Ontem vi uma loja e pensei em comprar brinquedos novos para ela.
Melissa balançou a cabeça, rindo.
— Amiga, você e o Henry são iguais! Ela mal brinca ainda. O quarto está cheio de brinquedos, tem até um baú lotado. E já doei um monte no Dia das Crianças porque vocês exageram demais.
— Mas é a única bebê que conheço. Tenho que mimar! — Ri, justificando meu exagero. — Já até olhei um carrinho elétrico para ela. É lindo, Mel.
— Carrinho elétrico? Calma, Bárbara. Ela nem engatinha ainda! — Melissa respondeu entre risos.
— Fazer o quê, né? Tenho que esperar. — Dei de ombros, mudando de assunto rapidamente. — E o vizinho gato? Ele vai para Angra conosco?
— Acho que sim, mas você que vai confirmar. Não quero a megera da mãe dele me olhando atravessado.
— Ah, pode deixar. Acha que vou perder essa oportunidade?
Melissa me olhou com olhos semicerrados. — Se comporte, Bárbara.
— Calma, só vou “dialogar” com o gatinho. Por enquanto. — Pisquei com um sorriso malicioso.
— Você é muito assanhada! — Melissa riu, me dando um tapa leve na perna.
— Você que é maliciosa. Mas falando sério, quero ajudar com os looks que você vai usar em Angra.
Melissa arqueou as sobrancelhas, desconfiada. — O Rômulo será sua conquista em Angra?
— Conquista, não. Só quero um parceiro para um banho de mar à noite.
— Sei. Banho de mar. Minha nossa, olha as ideias. — Melissa riu, gesticulando. — Se eu tomar banho de mar à noite, acabo me afogando na luz do luar enquanto vocês namoram.
Caímos na gargalhada juntas, e Melissa se recuperou com uma careta teatral.

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