Henry
Acordei cedo determinado a ir ver minha pequena antes de seguir para a loja. A noite passada foi um pouco melhor do que as anteriores; consegui dormir mais, mas meus olhos continuam vermelhos, a tosse persiste, e o corpo está dolorido. O mal-estar não mudará meus planos, no entanto. Mia é meu combustível diário, e, claro, a possibilidade de ver Melissa também me anima. Ela é o que ainda me conecta a algo real. Decidi ir devagar, respeitando o terreno frágil em que nos encontramos após nossa conversa recente, sem abusar da sua paciência.
A conversa com Melissa trouxe um alívio enorme. Foi como se um peso tivesse sido retirado das minhas costas. Saber que serei, ao menos, tolerado para ver a Mia me deixa mais tranquilo. Relembrar o brilho nos olhos dela, mesmo que por poucos momentos, reacende algo em mim. É o tipo de luz que me dá ânimo para encarar o dia.
Enquanto me preparava, uma mensagem do Ricardo apareceu no celular, avisando que passaria na loja mais tarde para conversarmos. Mentalmente, já começava a listar os assuntos pendentes. Depois de terminar de arrumar a bolsa e pegar as chaves do carro, coloquei os indispensáveis óculos escuros e segui para o portão.
Cumprimentei o porteiro como sempre, mas sua abordagem chamou minha atenção. Ele veio até a janela com um semblante meio hesitante, apesar do sorriso profissional.
— Bom dia, senhor Stuart. — Ele começou, enquanto eu abaixava o vidro.
— Bom dia. Como está? — Respondi educadamente, mas, para ser honesto, ainda não consigo me lembrar do nome dele. Faz pouco tempo que voltei a morar aqui, e certas formalidades ainda não se fixaram.
— Estou bem, senhor, mas, infelizmente, trago algumas más notícias.
— Aconteceu algo? — Minha curiosidade foi instantânea, embora já sentisse um incômodo se formar.
— Sim. O porteiro da noite relatou que uma mulher esteve aqui pedindo acesso ao seu apartamento. Ela disse que se chama Renata. Decifrei que é a mesma com quem o senhor conversou ontem pela manhã.
Ao ouvir o nome dela, minha respiração pesou. Já sabia que nada de bom viria a seguir.
— Sim, conheço a Renata. É a mesma pessoa com quem falei ontem. — Respondi, tentando manter o tom controlado, mas a tensão já estava subindo.
— Pois bem, senhor. Ontem à noite, ela retornou. Insistia que tinha autorização para subir ao seu apartamento por ser sua namorada, mas o porteiro explicou que não havia registro algum liberando o acesso. Ela ficou histérica, gritou que o senhor sempre permitia a entrada e exigia que a deixassem subir. Quando foi informado de que o senhor não estava em casa, ela perdeu o controle.
— Histérica? — Perguntei, já antecipando o desastre. — O que mais aconteceu?
— Infelizmente, ela não se conteve. Xingou o porteiro, gritou na portaria e, em determinado momento, tentou agredi-lo fisicamente.
Eu pisquei, tentando processar o que ouvia. Era inacreditável que Renata tivesse chegado a esse ponto.
— Não acredito nisso. — Murmurei, balançando a cabeça. Era surreal. Renata sempre foi manipuladora, mas nunca imaginei que ela fosse capaz de algo assim. — Ela tentou agredir o porteiro?
— Sim, senhor. O porteiro manteve a calma e chamou a segurança para retirá-la. Por respeito ao senhor, evitou envolver a polícia, mas foi uma situação muito desagradável.
Minhas mãos apertaram o volante com força. Isso era exatamente o tipo de coisa que eu queria evitar. Renata sempre foi um problema, mas agora estava passando dos limites. Eu odiava esse tipo de situação.
— Entendo, agradeço por terem agido com profissionalismo. — Disse, embora por dentro eu quisesse explodir. — Por favor, peça desculpas ao porteiro da noite em meu nome. Farei o possível para que isso não se repita.
— Claro, senhor Stuart. Sabemos que o senhor não tem responsabilidade pelo comportamento dela, mas achamos importante que estivesse ciente do ocorrido.
— Por favor, perdoem o transtorno, ela é louca, para não dizer outra coisa. Se ela vier aqui perturbar novamente, podem chamar a polícia. — Falei sério, tentando controlar a vergonha que me consumia.
— Ela chamou a polícia. — O porteiro informou, deixando-me ainda mais alarmado.
— O quê? Mas por quê? Se foi ela quem tentou agredir o porteiro! — Minha incredulidade era palpável, e ele sorriu, visivelmente constrangido.
— Alegou aos policiais que ele usou força contra ela. Ambos foram levados à delegacia. O condomínio providenciou um advogado para o porteiro, que já prestou depoimento e foi liberado. — Passei as mãos pelo rosto, sentindo o peso dessa confusão absurda.
— Meu Deus... não sei onde enfiar minha cara. — Balancei a cabeça, ainda tentando processar tudo.

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