Henry
Acordei pela manhã ainda tentando me acostumar com a ideia de estar em um hospital. É uma sensação terrível, desconfortável em todos os sentidos. Odeio hospitais, sempre odiei. A única lembrança boa que tenho de um lugar desses é o dia mais feliz da minha vida: o nascimento da Mia. Lembrar de quando a vi pela primeira vez e a segurei nos braços traz um conforto indescritível.
Olhei ao redor, reconhecendo o quarto e os barulhos típicos de hospital. Percebi que minha mãe não estava ali, mas uma bandeja com café da manhã ao lado da cama chamou minha atenção. Senti um pouco de fome, o que era raro nos últimos dias. Quando me preparei para levantar e pegar a bandeja, ouvi a porta se abrir e vi minha mãe entrando com algumas sacolas.
— Bom dia, filho. O café da manhã aqui é péssimo, então fui buscar algo decente para você. — disse ela, esbanjando sua habitual insatisfação.
Suspirei, achando graça. Minha mãe e seu hábito de reclamar de tudo. Podia ser a comida mais refinada do mundo, mas, se fosse de hospital, ela encontraria algo errado.
— Bom dia, mãe. Que exagero, a comida daqui não é ruim.
— Você nem comeu ainda, Henry. Para falar que isso é bom, só pode estar acostumado com comida de boteco. Não é à toa que emagreceu tanto. Pelo menos quando estava casado, estava mais saudável. — A frase dela me pegou de surpresa. Não esperava que ela admitisse algo positivo sobre o meu casamento com Melissa. Fiquei curioso, porque sabia que ela odiava reconhecer o quanto Melissa teve um impacto positivo na minha vida.
— A senhora está assumindo que eu estava melhor casado? Será que o mundo está acabando? — brinquei, provocando.
— Ah, meu filho, me poupe. Não posso fazer um elogio que você já vem com essas brincadeiras.
— É que elogios não são bem o seu forte. É estranho ouvir isso.
— Coma, Henry. Largue esse café da manhã horrível que eles servem aqui. Daqui a pouco, recolhem. Olha só, isso não é comida para alguém hospitalizado. Vou fazer uma reclamação contra esse lugar. — Ela pegou um pão da bandeja e fez questão de mostrá-lo. — Veja isso! Está duro como uma pedra!
— Está bem, dona Elisângela, já entendi. O que a senhora trouxe?
— Trouxe bolo, chá — porque o café está suspenso até o médico liberar —, biscoitos e achocolatado. — Ela começou a retirar tudo das sacolas, substituindo os itens da bandeja com os que tinha trazido. — Isso, sim, é um café da manhã decente.
— Elimina o chá e está ótimo.
— Vai tomar o chá, sim. Precisa esquentar esse peito. E, depois, vai direto para minha casa. — Disse isso com aquele tom autoritário que ela sempre usa quando quer encerrar uma conversa. Resolvi deixar essa briga para depois. Não tinha a menor intenção de ir para a casa dela.
— Falando nisso, o Ricardo deixou a mãe da Mia em casa e trouxe seu celular. Está cheio de ligações e mensagens da Renata. — Ela mencionou o nome que eu mais queria evitar ouvir. Só de escutar "Renata", toda a minha fome desapareceu.
— Preocupada? Era só o que faltava. Ela quer é se fazer de preocupada agora, depois que causou todo o estrago.
— Ela me ligou. Disse que está na portaria do hospital, querendo entrar para te ver.
— Nem pense nisso, mãe. Se ela entrar aqui, eu me jogo pela janela. Não estou brincando. — Falei firme, para deixar claro o quanto isso era inadmissível.
— Pare, Henry. Acha que sou louca? Depois de tudo que você me falou, não iria deixá-la entrar. Pedi para ela ir à minha casa mais tarde. Quero esclarecer tudo isso.
— Mãe, não me venha com histórias. Não quero saber de nada que ela tenha para dizer. Ela pode ir direto para o inferno, e espero que vá logo.
— Meu Deus, que boca suja, Henry! É assim que você planeja educar sua filha?

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