CONTINUAÇÃO
Chegamos ao restaurante e nos sentamos.
— O que você quer comer? — perguntei enquanto ela examinava o cardápio.
— Não sei, talvez algo mais leve... De bebida, quero cerveja. — Ela respondeu com um sorriso, mas logo me apressei em negar.
— Nem pense nisso. Bárbara, você precisa aprender a se alimentar direito. — Disse, tentando ser firme, mas sem soar autoritário. Ela me olhou surpresa, arqueando uma sobrancelha, mas não contestou. Eu só espero que ela não ache que estou querendo mandar nela. Uma coisa é certa: Elisângela não exagerou quando disse que Bárbara é irresponsável. Ela é divertida, leve e tem um carisma incomparável, mas, às vezes, parece não ter juízo nenhum.
A garçonete se aproximou da mesa, o sorriso dela era tão vibrante que parecia que estávamos em um comercial de dentes perfeitos. — Olá, boa noite. — Disse, educadamente, enquanto ela parecia estar em outro universo, me olhando fixamente.
— Boa noite. — Respondi, mantendo o tom cordial. — Pode nos trazer esse prato aqui, com bastante salada, e dois sucos de laranja bem gelados, por favor. — Apontei no cardápio enquanto ela continuava com o sorriso fixo. Senti o olhar divertido de Bárbara em cima de mim.
— Agora pode ir. — Acrescentei, tentando ser direto para interromper o encanto da garçonete. Assim que ela saiu, Bárbara explodiu em uma risada.
— Ela tá gamada em você! Aposto que nem anotou o pedido, ficou só te secando. — Disse, gargalhando. — Anota o número dela e já tem a diversão da noite.
— Haha, muito engraçada, você. — Respondi, balançando a cabeça, mas acabei rindo também.
— Tá, sério agora. Você disse que queria conversar comigo. Então, pode começar, tô curiosa. — Ela inclinou a cabeça, cruzando os braços sobre a mesa.
— Tudo bem, mas quero que saiba que não estou aqui para te criticar. Só quero o seu bem e do Henry. Antes de mais nada, sou amigo de vocês, certo? — Falei sério, com calma. Ela esboçou um sorriso, mas parecia confusa.
— O que é isso, Ricardo? Fala logo, o que tá acontecendo? — Ela perguntou, com a testa franzida.
— Conversei com a sua mãe, Bárbara... — Mal terminei a frase e ela já fez uma careta, mas eu continuei. — E ela me disse que acha você irresponsável. E, olha, sendo sincero, às vezes eu concordo.
— Olha, Ricardo, eu uso meu juízo quando quero. Não tenho que ser responsável, só preciso cuidar de mim. Não tenho filhos para criar, então não vejo por que isso é problema. — Respondeu, dando de ombros, como se fosse algo trivial.
— É sério isso? — Perguntei, surpreso, quase rindo de incredulidade.
— Claro! Olha o Henry, só começou a ser responsável depois da Mia. Acho que é assim. Sem filhos, sem essa obrigação. — Ela se levantou, foi até a geladeira do restaurante, pegou um refrigerante e voltou a se sentar como se nada tivesse acontecido.
— Bárbara, você realmente acha que a responsabilidade só começa com os filhos? Eu não tenho filhos e sou muito responsável.
— Mas isso foi exigido de você. Você teve que cuidar da sua mãe e do seu irmão. É diferente. E nem adianta bancar o certinho, Ricardo. Você ilude essas mulheres de plantão por aí. — Disse, apontando sutilmente para a garçonete que acabava de trazer nosso prato. O sorriso dela ainda mais largo me deixou desconfortável.
— Eu não iludo ninguém. Sempre deixo claro que sou livre. E você já viu isso várias vezes. — Respondi, tentando manter a compostura. Bárbara assentiu, concordando.
— É verdade. Já te vi várias vezes dando esse recado. Mas olha, umas 10 mulheres no mínimo. — Ela riu de leve, como se estivesse contando uma anedota qualquer.
— Então concordamos que não sou um ilusionista.
— Tá bom, Ricardinho. Mas onde quer chegar com isso? — Ela perguntou enquanto começava a comer.
Agora vinha a parte difícil. Falar a verdade ou continuar rodeando o assunto? Era hora de decidir.
Não havia mais espaço para rodeios, e eu sabia disso. Admito que foi a primeira vez que enrolei tanto para falar algo, mas me entenda, esse é um assunto delicado tanto para mim quanto para Bárbara.

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