— É como educar uma criança. Não é por lhe dar os brinquedos mais caros ou matriculá-la na escola mais cara que ela se tornará uma pessoa de sucesso automaticamente. Se os valores morais básicos estiverem distorcidos, não importa o quanto se invista, o resultado será apenas uma criança mimada, um peso morto, cheia de mentiras e incapaz de corrigir os próprios erros. O mesmo princípio se aplica à criação de medicamentos inovadores.
Deise: ?????
A diferença entre criar uma criança e desenvolver um novo medicamento ainda era gigantesca.
Além do mais, ela sequer tinha filhos. O que Júlia estava tentando insinuar com aquelas indiretas todas?
Sob os olhares atentos de todos, Deise abriu um sorriso gentil e respondeu, sem arrogância nem submissão:
— A Diretora Júlia se equivoca nesse ponto. O nosso Centro de Saúde Marques não investiu no estúdio de Emerson com a ilusão de comprar inovação com dinheiro, mas sim porque enxergamos a genialidade das ideias dele e de sua equipe, que estavam sendo ofuscadas pela falta de recursos.
— Você questionou agora há pouco o que qualifica o Grupo Marques a apostar na inovação de base... Pois eu lhe pergunto: na visão da Diretora Júlia, que tipo de empresa estaria apta a fazer isso? Uma que já possui todos os recursos de forma abundante? Isso não iria na contramão do próprio tema da sua palestra — de que a inovação médica precisa quebrar a dependência de recursos externos?
— O nosso Grupo Marques pode não ter a tradição das antigas empresas farmacêuticas, nem a infraestrutura dos laboratórios de ponta, mas possuímos a determinação de assumir riscos por ideias fora da curva e a capacidade na cadeia de produção para levar os resultados do laboratório direto para os leitos dos pacientes. E isso, por si só, não seria a mais rara e preciosa forma de inovação?
Assim que Deise terminou de falar, o local foi tomado por aplausos ensurdecedores.
No palco, Júlia manteve-se em silêncio.
Embora não demonstrasse concordância com as palavras de Deise, tampouco as rebateu.
Após o encerramento do simpósio, todos se dirigiram ao salão para o banquete noturno.
Deise e Victória caminhavam ladeando Palmiro, uma de cada lado.
Como Palmiro havia se tornado o grande exemplo na internet — o marido devotado que mimava a esposa —, ele não podia andar colado em Victória e distante de Deise.
Deise não se afastou dele, mas a distância entre os dois ainda era maior do que a de Victória e Palmiro.
Nisso, Júlia veio caminhando na direção deles, e Victória prontamente puxou assunto:
— Diretora Júlia...
Júlia pretendia falar com Deise e, ao ouvir a voz de Victória, notou a sua presença pela primeira vez.
— Você é...
— Eu sou Victória. Aqui está o meu cartão.
— A minha cunhada não tem muita instrução e lhe falta traquejo social. Ela foi rude durante o simpósio, mas espero que a Diretora Júlia seja magnânima e não leve a sério as atitudes de alguém ignorante.
Ao ouvir as alfinetadas de Victória dirigidas a Deise, Júlia revirou os olhos com um sorriso cínico.
— Você e o seu irmão são farinha do mesmo saco.
Sabendo que Júlia ainda guardava rancor do incidente do dia anterior, Palmiro, mesmo sentindo o orgulho ferido, tomou a iniciativa de se desculpar:
— Desculpe-me, Diretora Júlia. O que aconteceu ontem não foi intencional, peço que me perdoe.
— O que aconteceu ontem?
— O que houve com vocês ontem? — perguntou Deise, curiosa.
Ao ver que Deise não sabia de nada, Júlia pareceu surpresa e deu de ombros, sorrindo.
— O que mais poderia ser? Tudo graças à sua filha, é claro!

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