༺ Amara Wild ༻
Enquanto observava Domenico guardar o contrato que acabara de assinar, uma sensação estranha se apoderou de mim. Era como se eu tivesse vendido minha alma ao diabo. A escolha estava feita, não havia mais volta.
— Agora não tem mais volta — Cal, que estava ao meu lado, disse com uma calma que me fez sentir ainda mais o peso do momento.
Suspirei e murmurei, com um nó na garganta:
— Não…
Com um movimento lento, entreguei a chave para Cal, o que parecia ser a única coisa que ainda me conectava ao que conhecia antes dessa mudança toda.
Cal olhou para mim, surpreso, e perguntou:
— Para que isso?
Forcei um pequeno sorriso, tentando manter a voz firme.
— Para você, ficar lá na minha casa até o meu contrato acabar. Depois a gente vê o que fazer. E, claro, você pode comprar o que precisar no supermercado — disse, tentando passar a sensação de que isso era o mínimo que eu poderia fazer por ele, depois de tudo o que já fez por mim enquanto morava nas ruas.
Cal, que estava observando silenciosamente a cena, parecia não gostar da ideia. Ele balançou a cabeça, com uma expressão séria.
— Não posso aceitar isso — ele disse, com uma expressão de desagrado.
Mas não desisti. Eu precisava fazer alguma coisa por ele, por tudo o que ele me ofereceu até agora.
— Por favor, Cal. Aceite, não posso deixá-lo sem fazer o mínimo por você — insisti, sentindo a urgência de mostrar minha gratidão, ainda que de forma pequena. — Além disso, irei sempre visitá-lo.
Ele olhou para mim por um momento, e então, finalmente, cedeu.
— Está bem. Se você insiste — disse ele, mas com uma leve relutância no tom.
Me despedi de Cal, que me acompanhou até o carro. O silêncio entre nós era pesado, quase insuportável, mas Cal não deixou de fazer seu comentário, com um sorriso acolhedor:
— Agora vá e se cuide! Ele vai cuidar bem de você. Apesar da proposta absurda. Vou cuidar de tudo. Sua casa está em boas mãos.
Tentei sorrir de volta, mas estava difícil disfarçar a ansiedade.
— Assim espero — murmurei.
Quando me virei para Domenico, ele me olhou com um olhar enigmático, tão misterioso quanto o de sempre. Ele não estava mostrando nada, porém, sabia que ele estar sempre avaliando tudo.
Ele passou a mão pela barba, e, com um tom impessoal, disse:
— Chegou a hora de ir embora.
Peguei minha mochila e, ao me virar para sair, ele me olhou com um olhar que não conseguia decifrar.
— O que você pensa que está fazendo com isso? — ele perguntou, com um tom que não escondia o desdém.
Respirei fundo, sem entender muito bem o que ele queria.
— São minhas coisas — respondi, com um leve tremor na voz.
Ele balançou a cabeça com uma expressão que me fez engolir em seco.
— Retire só seus documentos e entregue-me. O resto não servirá mais para você.
Fiquei sem palavras. Só obedeci, pegando os documentos e entregando a ele. Quando ele pegou minha bolsa e a jogou no lixo, uma sensação de choque me paralisou.
— O que você fez? — perguntei, indignada. — Por que fez isso?
Com calma ele somente respondeu:
— Você não vestirá mais essas roupas. Não são mais adequadas para você.
Sinto uma mistura de raiva e confusão, mas não podia fazer nada. Então, uma pergunta me escapou:
— E o que vou vestir agora? E quando eu precisar tomar banho?
Ele simplesmente respondeu, como se fosse o mais natural do mundo:
— Vamos comprar roupas novas para você. E, antes de irmos para a mansão, temos alguns lugares para ir.
Suspirei, aceitando a ideia de que, realmente, as coisas mudariam de uma forma irreversível. Caminhei até o carro com ele, sem dizer uma palavra. No caminho, Domenico me observava, seus olhos parecendo mais calculistas do que nunca.
— Você só costuma usar calças jeans? — ele perguntou de repente, seu olhar curioso e um pouco sedutor.
Estava um pouco desconcertada com a pergunta, mas respondi, tentando ser o mais natural possível:
— Sim, as ruas são muito frias.
Ele balançou a cabeça como se não gostasse muito dessa resposta.
— Isso vai mudar. Gosto de mulheres com vestidos e saias.
Mal sei como responder a isso. Mas disse, meio sem graça:
— Vou tentar me adaptar.
Ele balançou a cabeça em aprovação. Então, finalmente, o carro parou em frente a uma clínica hospitalar. Olhei, confusa.
— O que estamos fazendo aqui? — perguntei, sem entender.
Ele sorriu, pegou os exames e os guardou cuidadosamente na pasta, com um olhar satisfeito.
Notava que ele estava levando isso muito a sério. Como se fosse importante para alguma coisa que ele queria mostrar aos irmãos.
O médico me deu uma última olhada.
— Pode ir. E, pelo que vejo, vai precisar de um acompanhamento, mas, em geral, está bem.
Antes que pudesse responder, Domênico já estava me puxando para a próxima etapa.
O que seguiu foram mais procedimentos. O dentista me tratou rapidamente, fazendo apenas uma limpeza e um clareamento, e finalmente, após horas, chegamos ao shopping.
Lá, ele me fez passar por uma transformação completa. As vendedoras foram rápidas e precisas, escolhendo roupas que me faziam parecer outra pessoa.
Mas o que mais me impressionou foi o spa. Não estava preparada para aquilo.
Assim que entramos, um homem sorridente, afeminado e com uma energia toda própria se aproximou. Ele olhou para Domenico e depois para mim, com um olhar de surpresa.
— Uau… faz tempo que você não aparece por aqui, Domenico. O que me traz hoje? — perguntou, com um sorriso largo.
Domenico, com aquele tom seco, apontou para mim.
— Ela. Quero que você faça um milagre.
O homem levou uma mão ao peito, surpreso.
— Mas de onde você tirou essa criatura?
Eu não consegui me conter e, indignada, respondi de imediato.
— Não me ofenda! Nem todo mundo tem dinheiro para se cuidar como essas mulheres daqui.
Ele deu uma risada e, para minha surpresa, parecia gostar da minha ousadia.
— Gostei dela, Domenico. Ela é ousada. Isso é bom.
Ele somente assentiu, como se fosse um elogio a mais. Não me importava com a opinião deles. Estava apenas seguindo as ordens.
E então, enquanto o homem me guiava pelo spa e começava a me preparar para o que parecia ser uma transformação completa, não pude deixar de me perguntar até onde essa jornada iria me levar?
Estou me deixando moldar de todas as formas, e não sabia se estava perdendo minha identidade ou me encontrando de novo.
Depois de tudo, ele começou o processo. Meu cabelo foi cortado, as unhas feitas, a pele tratada e me vi lentamente deixando para trás a antiga Amara.
Domenico observava tudo com um olhar atento, quase satisfeito, como se estivesse esperando que eu me tornasse alguém completamente novo.

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