— Você me odeia?
A pergunta pegou o menino desprevenido.
— Por que eu odiaria o senhor?
— Durante todos esses anos, eu estive em dívida com você.
Sem conseguir ver o rosto do pai, tampouco a expressão em seus olhos, Tadeu balançou a cabeça com convicção.
— O vovô Alfredo sempre me disse que o senhor tinha muitas coisas importantes para resolver, por isso não conseguia ficar perto de mim, mas que nunca, nunca deixou de me amar.
— É igual... — Ele buscou as palavras. — Igual a mamãe. Não é que ela não me amava, ela só não sabia que eu era o filhinho dela.
Como aquelas duas coisas poderiam se equiparar?
Não eram a mesma coisa, de jeito nenhum.
Um fora uma escolha ativa; o outro, uma consequência passiva.
Cícero sabia que Tadeu ainda era muito jovem para compreender a magnitude de tudo aquilo. Talvez, quando crescesse, percebesse o monstro abominável que o próprio pai era.
Alguém que o negligenciara, fazendo-o engolir injustiças por anos, chegando ao ponto de impedir que mãe e filho se encontrassem, arrancando de Valentina a chance de amá-lo.
— Eu estou em dívida com você e... — A voz falhou. Um silêncio mortal caiu sobre o quarto. — Em dívida com a sua mãe.
Na verdade, "dívida" era um eufemismo brando.
Era um pecado.
Um pecado que ele nunca seria capaz de expiar, nem nesta vida, nem nas próximas.
Tadeu era pequeno demais para entender as atrocidades que o pai cometera. Mas o dia em que se tornasse um adulto chegaria; e então ele o odiaria, com o mesmo fervor com que Valentina o odiava.
Cícero importava-se com pouquíssimas pessoas no mundo. Algumas já haviam partido, e as poucas que restavam, sua esposa e seu filho, haviam se tornado prisioneiros do ódio por ele.
Era a sua punição.
O fruto podre que os pecados de um monstro haviam semeado.
Naquela madrugada, Tadeu não resistiu ao sono. Antes que o castelo estivesse pronto, adormeceu debruçado sobre a mesa.
Quando os primeiros raios de sol penetraram pela fresta da cortina, o alarme do seu Relógio Gênio Kids tocou.
Lá de baixo, a voz do mordomo Alfredo ecoou:
— Pode dormir mais um pouquinho, jovem Senhor. Seu pai avisou que você tiraria o dia de folga.
— Hum... Tá bom, obrigado, vovô. — Tadeu coçou os olhinhos, virou o rosto para o outro lado e continuou a dormir. Momentos depois, ao abrir os olhos lentamente, deparou-se com a maquete de Lego completamente finalizada sobre a mesa.
Um chalezinho acolhedor. Uma casinha que transmitia calor.
Meio zonzo de sono, Tadeu tocou na portinha do brinquedo e resmungou para si mesmo:
— A porta tá invertida.
O seu pai era mesmo um bobo.
Após o murmúrio, virou o rosto novamente, deu um sorriso suave e voltou a dormir.
—
Valentina havia acabado de comprar o café da manhã. Atendendo ao pedido de Isaura Aguiar, pediu para colocarem dois ovos extras no crepe.
No trajeto até o hospital, teve a nítida sensação de que uma sombra a seguia, nem muito perto, nem muito longe.
Ao olhar por cima do ombro, não viu ninguém.
Após o fim de seu plantão matinal, ela pegou o carro e partiu para um destino específico.
A estrada na montanha era péssima, íngreme e esburacada. O seu Volvo até chegou a enguiçar no meio do caminho.
— Com razão, eu já imaginava...
Aquela revelação encurtou a distância entre as duas quase que instantaneamente.
Foi naquela tarde, ali mesmo, que Valentina tomou conhecimento de uma série de horrores dos quais jamais suspeitara.
Dias antes, quando entregara aqueles documentos a Amélia, Valentina jogara uma cartada de precaução: ela abrira o envelope, lera o conteúdo e tirara fotos.
Que tipo de documento era aquele?
Era uma denúncia. Escrita em papéis amarelados pelo tempo, uma carta formal de acusação datada de muitos anos atrás. Os denunciados eram Ignácio e Vitória Pacheco.
Quando os eventos mencionados na carta ocorreram, Valentina ainda era uma criança, mas preservava lapsos daquela época em sua memória.
Como quando, de repente, seu pai parou de voltar para casa por um longo período.
Ou quando sua mãe, sempre tão equilibrada e inabalável, começou a sofrer com dores de cabeça excruciantes devido à ansiedade constante.
Ela até se lembrava de escutar os dois discutindo aos sussurros.
Vitória chegou a dizer a ela, que era apenas uma menina, que talvez a família precisasse viajar para fora do país de férias.
Contudo, de um dia para o outro, tudo voltou ao normal. Seu pai retornou, a mãe recuperou a serenidade habitual e nunca mais se tocou no assunto da tal viagem.
As datas presentes na carta batiam exatamente com aquele período sombrio.
O documento afirmava que os novos equipamentos médicos desenvolvidos pelo Grupo Pacheco não haviam sido aprovados nas inspeções federais. Mas, para evitar um prejuízo milionário com o descarte dos lotes, a liderança ignorou os alertas, lançou os produtos no mercado e os forneceu para grandes hospitais. O resultado: 2.345 equipamentos apresentaram falhas, e sete pacientes sofreram lesões durante cirurgias causadas pelo mau funcionamento. Uma inspeção surpresa finalmente apontou o dedo para o Grupo Pacheco.
O conglomerado, no entanto, conseguiu empurrar a culpa para dois bodes expiatórios.
A empresa alegou que dois funcionários-chave haviam modificado secretamente as estruturas de fabricação para lucrarem ilicitamente. Ambos foram investigados, mas durante o inquérito, morreram misteriosamente em suas casas após uma explosão de gás. Sem suspeitos, o caso foi arquivado.
Pouco tempo depois dessa tragédia, Cícero e Amélia apareceram nas portas daquele Orfanato da Esperança.

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