Valentina já dissera inúmeras vezes que achava aquilo horroroso.
Mas Cícero continuava consertando as coisas da mesma forma, sem mudar uma vírgula.
Sempre que ele se recusava a ir ao médico, rejeitava os remédios ou os jogava fora, ela, num acesso de raiva, rasgava as fotos dos dois.
Como ele era um poço de indiferença impenetrável, não demonstrava interesse ou aversão a quase nada — nem mesmo a ela, em boa parte do tempo.
Apenas quando ela rasgava as fotos que tiraram juntos, ele reagia.
Foi assim que Valentina descobriu como provocá-lo da pior maneira. Para ela, haveria infinitas outras fotos; eles teriam dezenas de milhares pela frente, então sacrificar uma ou duas não era grande coisa. E também era o seu jeito de extravasar a frustração e a raiva no calor da briga.
Porém, para Cícero, o impacto daqueles papéis sendo rasgados era devastador.
A cada foto dilacerada, suas pálpebras tremiam.
Ele nunca suplicava para que ela parasse, nunca a impedia fisicamente. Apenas recolhia silenciosamente os retalhos à noite e, sozinho, remendava-os um por um.
Portanto, Valentina tinha a absoluta certeza de que aquelas colagens brutas nas páginas eram obra do seu ex-marido.
Colocando os óculos, ela usou uma pinça com delicadeza extrema para levantar a camada mais superficial da fita adesiva, aquela que já havia perdido a cola. Puxou lentamente, garantindo que não danificaria os preciosos fragmentos de papel.
Pouco a pouco. Milímetro por milímetro.
O processo era tão meticuloso que sua respiração parecia ter parado.
Sob o foco da luminária, gotículas de suor cobriram a ponta do nariz de Valentina.
Pronto.
Com um suspiro exausto, ela selecionou os pedacinhos com a pinça e começou a montá-los sobre a mesa como se fossem as peças de um quebra-cabeça sagrado.
Pegou uma nova tira de fita e colou tudo com a devoção de quem aplicava uma película em um vidro inestimável.
Foi então que, ao colocar a página em sua posição original, a primeira linha de uma entrada completa revelou-se diante de seus olhos.
— 15 de Outubro. Hoje fiz cinco anos, e ganhei bolo.
No canto da página, havia um pequeno sol desenhado, o mesmo tipo de desenho inocente que Valentina vira mais cedo.
Num momento de longo silêncio, a mulher tomou a decisão de abrir o diário por inteiro.
— 15 de Outubro. Hoje fiz cinco anos, e ganhei bolo.
O papai estava em casa, o Vovô tava em casa, ela também.
Não gostei. Mas fiquei feliz.
A letra trêmula, carregada da inocência de uma criança que mal sabia traçar as linhas, exibia as primeiras tentativas de Tadeu de eternizar seus sentimentos.

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